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A Morte do Tempo em Pedro Páramo

“A vós bradamos, os degradados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando,
neste vale de lágrimas.”

(Salve-Rainha)”

“O esquecimento em que nos deixou, filho, você deve cobrar caro”. Foi este o último pedido de Dolores Preciado em seu leito de morte, sabendo que jamais poderia regressar à querência pela qual tanto suspirava. Voltaria, entretanto, acompanhando os pensamentos do filho. E no retrato esfacelado trazido junto ao peito dele na viagem, o único registro da nostálgica mãe que demonizava fotografias. Em Comala, o pequeno povoado mexicano onde Dolores nascera, no estado de Colima, Juan Preciado deveria encontrar seu pai, o terrível latifundiário Pedro Páramo.

Publicado em 1955, Pedro Páramo foi o primeiro e único romance do escritor e fotógrafo mexicano Juan Rulfo. O livro, considerado por muitos a principal obra da literatura do México, serviu de inspiração para o realismo mágico, corrente literária que se consolidou na América Latina nos anos 60 e 70. Apesar de ter como mote o conflito familiar de Juan, essa não é a única história do romance. Composto por fragmentos descontínuos que transitam no tempo através de diálogos e narradores alternados, Pedro Páramo se destaca por sua estrutura narrativa disruptiva e funciona como um velho álbum de recordações de mortos que se recusam a padecer no próprio esquecimento.

A terra prometida que reinava nos sonhos distantes de Dolores Preciado — uma planície verdejante e fértil, cheirando a frutas e pães frescos e a cada instante surpreendida por novos ruídos da vida que corria nas ruas e campinas — era bem diferente da encontrada pelo filho ao dobrar a encruzilhada de Los Encuentros. Restavam apenas ruínas e rastros do que um dia talvez tivesse sido aquela Comala — quem saberia? Esta era uma vila arrasada e funebremente silenciosa, impregnada por um ar quente e putrefato que provocava uma sensação de sufocamento constante. Mais do que um lugar parado no tempo, era como se o próprio tempo tivesse se findado. Pedro Páramo, outrora o homem mais poderoso da região, já havia morrido. E todos os outros habitantes também. Uma vez respirando o azedume da cidade fantasma e sendo asfixiado pelas sombras que se esgueiravam por entre as vielas acinzentadas, não tardaria Juan Preciado a se juntar aos mortos. Seja repousando em covas rasas ou vagando sob o pó das velhas ruas, os miseráveis finados foram condenados a permanecer neste mundo. E assim jaziam até a eternidade, rememorando a vida que tiveram e, sobretudo, as que deixaram de ter.

Nem todos os personagens do livro demonstram ter consciência de que estão mortos. Juan é acolhido por aqueles que continuam normalmente sua rotina, na solidão das casas deterioradas. É através das conversas com estas aparições que o viajante constrói sua própria história, embaralhada junto a dos que um dia habitaram o povoado. Quando chega sua vez de bater as botas, passa a escutar debaixo da sepultura os lamentos dos colegas de cemitério que falam sozinhos em suas covas. A variedade de vozes lamuriosas que se ouvem romper a terra são aquelas que normalmente não seriam escutadas em vida. Já a voz do famoso Pedro Páramo havia se calado junto a seu corpo. A consciência do personagem que dá nome ao romance só aparece em suas lembranças infantis, de um tempo no qual ainda não era o homem temido que subjugaria e ceifaria a vida de tantos outros.

A atmosfera opressiva da antiga Comala não era causada apenas pela tirania de Pedro. Um dos fatores centrais é o catolicismo, imposto ao México pela colonização espanhola e de influência avassaladora sobre o povoado da trama. Além de períodos ambientados durante a Revolução Mexicana (1910-1924), Pedro Páramo também faz referências à Guerra Cristera (1926-1929) — uma rebelião católica contra as leis anticlericais da Constituição de 1917, promulgada após a revolução e vigente até os dias de hoje. Essa insatisfação acarretou em um conflito armado com o Estado Mexicano, o qual o autor Juan Rulfo vivenciou em sua infância.

Nascido em 1917 em Sayula, no estado de Jalisco, o escritor ficou órfão durante a Guerra Cristera e cresceu num abrigo em Guadalajara, a mais de 100km de sua terra natal. Além de Pedro Páramo, publicou em vida somente o livro de contos El llano en llamas, de 1953. Ainda que tenha deixado uma obra curta, o misterioso Juan Rulfo, falecido em 1968, até hoje segue aclamado como um dos maiores e mais influentes escritores latinoamericanos Longe das máquinas de escrever, continuou registrando as contradições mexicanas através das fotografias, nas quais também se nota seu fascínio por ruínas e pelos rastros da existência que resistiram ao implacável tempo.

Em seu México fictício, as guerras e suas consequências também eram reais. E um dos personagens de Rulfo que lutou ao lado dos cristeros foi o Padre Rentería, o único sacerdote de Comala. A Rentería cabia a responsabilidade de julgar um a um os pecadores da vila e conceder ou não o perdão a eles — ou seja, definir quem iria para o céu ou para o inferno. Tais sentenças são também motivo de seu suplício pessoal, com questionamentos constantes, e influenciam diretamente na maneira com que os moradores encaram a morte.

Em determinado momento, uma das mulheres enterradas sem ter recebido o perdão divino desabafa: “A vida já é dura o bastante. A única coisa que faz com que a gente mova os pés é a esperança de que ao morrer nos levem de um lugar a outro; mas quando fecham para a gente uma porta e a que continua aberta é só a do inferno, mais valeria não ter nascido. O céu para mim, Juan Preciado, está aqui onde estou agora” (RULFO, 2019, p. 77-78). O que fica claro nessa e em outras passagens é que, seja na vida ou na morte, os personagens de Pedro Páramo não possuem qualquer perspectiva de um futuro, por serem perseguidos incessantemente pelo pecado e pela culpa. Assim, para alguns não há grande dificuldade em aceitar o próprio desencarne — como foi o caso de o de Eduviges Dyada, que cometera suicídio, e o de Dorotea,  a personagem citada acima, a qual apenas sentara na espera de que sua alma se esvaísse.

A morte e a vida em Pedro Páramo não são colocadas como opostas, apenas representam fases distintas de um mesmo ciclo. Na prática, as dualidades pressupostas pelo catolicismo entram em conflito com as cosmovisões pré-colombianas que resistiram à violência colonial. É por isso que, na terra em que os marginalizados glorificam a Santa Muerte, há defuntos mais vivos do que aqueles cujos pulmões sorvem ar fresco todas as manhãs, e vivos mais mortos que os já carcomidos pelos vermes. O que mantém viva a cidade de Comala e seus habitantes são justamente suas memórias individuais e coletivas. O tempo, porém, simplesmente cessa a partir do presente. No livro, o futuro é inexistente não apenas pela desesperança geral, mas também porque nunca houve uma ruptura com o passado. Mesmo durante a vida carnal dos personagens, eles permanecem agarrados a este passado que em muitos casos sequer existiu: Dorotea, por exemplo, sofre as dores da saudade de um filho que jamais gestara e sonhava em ir para o céu procurá-lo. O próprio Juan Preciado é enviado para morrer em Comala no lugar da mãe que não pudera fazer o mesmo. É curioso que, numa obra centrada na morte e permeada por diversas questões socioeconômicas e culturais, a mais cruel ceifadora seja a nostalgia. É ela o ponto fraco até mesmo do pecador absoluto que não teme nem aos homens terrenos nem à impiedade do inferno, representado aqui na figura de Pedro Páramo.

O passado sempre foi doloroso a Pedro. Tinha medo de reviver lembranças como a morte do pai “porque trazia outras, como se rompesse um silo repleto e depois quisesse conter os grãos” (RULFO, 2019, p.79). O mal que Pedro causara aos seus conterrâneos e subordinados se converteu também em revolta dentro de seus filhos de muitas mães, os quais também tiveram fins trágicos. E, para ele, sua condenação começou a ser paga ainda em vida: de maneiras distintas, a morte levou um a um todos os que amava. Inclusive sua última esposa, Susana San Juan, a mulher pela qual devotou sua paixão desde que eram apenas crianças soltando pipa pelas colinas. Susana, porém, há muitos anos vivia presa em sua loucura, seus traumas e sua viuvez, como se seu ex-marido Florencio ainda vivesse e a qualquer momento pudesse vir a possuir seu frágil corpo. Com o falecimento de Susana, se foi o único desejo que fugia do controle de Pedro. Os sinos tocaram incessantemente por tantos dias que logo o badalar se converteu numa enorme festa e o latifundiário jurou se vingar do povoado. E quando Pedro entrega o resto de seus anos a sonhar diuturnamente com a amada que jamais retornaria, e que nunca havia sido verdadeiramente sua, a cidade também definha com ele. Vítimas de um passado que ninguém conseguiu enterrar.

“Este mundo, que nos dilacera por todos os lados, que vai esvaziando punhados de nosso pó aqui e acolá, desfazendo-nos em pedaços como se regasse a terra em nosso sangue. O que fizemos? Por que nossa alma apodreceu?”

(RULFO, 2019, p. 97)