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A Rotina Invadida Pelo Coletivo em Ruth em Questão

Uma jovem engravida na adolescência. Sem planejamento, sem preparo para lidar com o futuro, sem amparo de familiares e amigos. Uma história normal, que tantas vezes se repete em nossa sociedade mas que costumam ser ignoradas ou invisibilizadas. A jovem, Ruth (Laura Dern), aos trancos e barrancos procura suporte para seguir com sua vida e talvez interromper a gravidez. A vida segue, e um dia, Ruth vai ao mercado e, ao folhear o jornal, vê uma nota a respeito de sua história. A menina fica incomodada com a exposição mas vida que segue… Certo? Errado. A partir dali, nada mais será o mesmo. Qualquer condução tranquila da situação que a personagem e o espectador possam ter imaginado evapora, e a exposição midiática faz com que a história de Ruth se torne o grande assunto da cidade.

Ruth em Questão, primeiro filme de Alexander Payne, é focado na trajetória e gravidez de Ruth, mas tem como real interesse a forma como a exposição do caso transforma completamente o destino da personagem e de todos ao seu redor. A entrada da mídia influencia diretamente no trato que Ruth recebe de todos ao seu redor – antes, os que a negavam auxílio logo passam a ver no caso uma potencial bandeira. Se antes, os religiosos não se importavam de fato com o que acontece com a personagem e o feto, logo já a acordam com um coral cristão dentro da casa da moça.

Payne balanceia a sutileza e a exposição para mostrar como a mídia tem interferência no caso. Se helicópteros trazendo grandes rostos da televisão para conversar com a protagonista são os momentos mais escrachados e caricatos do filme, a fineza na forma como Ruth passa a se comunicar com os outros personagens é um ponto bem esperto no trabalho do diretor. As conversas diretas e honestas que a personagem de Dern tinha com as pessoas ao seu redor logo são substituídas por diálogos terceirizados, com Ruth descobrindo a opinião e ouvindo conselhos dos outros pela… Televisão. Não mais ouve em sua cara o que os outros querem lhe dizer, e sim fica sabendo quando liga a TV e vê essa pessoa dando depoimento sobre a menina em rede nacional.

O caso toma proporções bizarras, deixa de ser um acontecimento corriqueiro na vida de uma adolescente para se tornar uma disputa política, um show midiático puro. Payne estrutura esse desencadeamento de eventos em uma espiral dramática belíssima. Ruth em Questão não possui um ritmo comum, e vai escalando cena a cena conforme o alcance das matérias sobre Ruth aumenta e impacta para além da vizinhança onde vive. O que era uma escolha pessoal logo se torna um grande debate nacional e os rostos são substituídos por bandeiras. Os personagens da história deixam de ser indivíduos e passam a ser apenas signos; há uma despersonalização, uma troca da humanidade pelo simbolismo. Não mais importa quem está participando da discussão, e sim o que essa pessoa representa.

No final, dividida entre aceitar dinheiro para abortar ou aceitar dinheiro para prosseguir com a gravidez, Ruth faz a única coisa capaz de encerrar sua jornada com dignidade: foge. Foge tanto dos que tentam manipular seu destino, quanto da câmera, do espectador, do próprio filme. Após entrar na clínica e pegar o dinheiro prometido pelo grupo pró-aborto, Ruth foge pela janela e, não surpreendentemente, sai caminhando calmamente no meio dos manifestantes. Sem que ninguém sequer desconfie que ela esteja ali ou a reconheça, pois a questão há muito deixou de ser sobre ela e passou a ser sobre certezas, crenças e bandeiras. O filme se encerra com Ruth caminhando, reconquistando sua liberdade e as rédeas do próprio destino, sem nos deixar saber o que fará ou o que pensa. Preservando sua intimidade e seu livre arbítrio, longe de cartazes, discursos e da própria lente de Payne.