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A Verdade Fraudada de Chico Albuquerque

CHARLATÃO.
s.m.[pej.] Aquele que se utiliza da boa-fé de alguém, geralmente, fingindo atributos e qualidades que não possui, para obter vantagens, ganhos, lucros etc.; impostor.

Analisar a fotografia de Chico Albuquerque (1917–2000) é, antes de tudo, um exercício de englobamento. Da contribuição pioneira na fotografia publicitária às incursões artísticas pelo interior do país, o fotógrafo transitou entre realidades distintas para retratar o Brasil em plena expansão industrial e, através de campanhas publicitárias, ensaios com povos ribeirinhos ou do seu olhar para a arquitetura das grandes cidades, contou sua própria verdade sobre o país. Natural do Ceará e filho de um casal de fotógrafos, Chico sempre foi precoce. Aos 15 anos, em parceria com o pai, dirigiu seu primeiro documentário, com 17 fotografava no estúdio da família e com 25 foi convidado para ser o fotógrafo do mítico É Tudo Verdade, filme inacabado de Orson Welles. Oportunidade única —e curta— que o fotógrafo não desperdiçou: aprendeu tudo o que podia sobre composição e estética com o diretor americano e, de quebra, tirou da experiência o que seria a tônica do seu trabalho.

Dez anos após as filmagens frustradas de É Tudo Verdade, agora como maior nome da fotografia publicitária do país, Chico voltou ao Ceará para encerrar o ciclo iniciado com Orson. Em Mucuripe, seu ensaio mais premiado, registrou a rotina de um grupo de jangadeiros e escancarou as diferenças entre o Brazil-ideal, aquele fabricado sob medida para o consumo da classe média emergente e o Brasil-real, aquele nunca documentado e sempre marginalizado. Não há volta depois desse ponto. Se não tem o que fazer, você avacalha. Depois de Mucuripe, Chico passa a documentar, ao mesmo tempo, duas noções completamente opostas de Brasil. Se o processo de industrialização do Brasil encontrou na publicidade o meio para a apresentação, divulgação e incentivo ao consumo de novos produtos e/ou estilos de vida, é a partir dos trabalhos do fotógrafo que fica evidente o custo desse suposto avanço: enquanto a estética publicitária retrata um nação projetada para exportar o ideal do sonho americano para uma realidade mais terceiro-mundista, seus ensaios pelo interior e ruas do país apostam no retrato de classes para mostrar o que de fato é o terceiro-mundo emergente.

Tudo isso fica bem evidente em duas campanhas: a Família Walita (1960) e Kombi Corujinha (1964). Na primeira, Chico ressalta a formação familiar como pano de fundo para o lançamento do produto com o pai (provedor), mãe (consumidora) e filha (futura consumidora) orbitando ao redor do produto cobiçado; já na segunda, o fotógrafo escolhe um cenário parecido com o de Mucuripe para fotografar o automóvel símbolo da família-ideal-brasileira. Mas se as praias do Ceará despertavam o registro genuíno de uma comunidade, o beira-mar paulistano carregado em tom pastéis retratava uma classe média alienada em pleno regime militar. Em ambos os casos, as fotos de Chico ressaltam que desejo pelo consumo está intrinsecamente ligado a construção do meio familiar.
Mas outras pautas também foram pano de fundo para suas fotos. Em campanha para Simca Chambord no ano de 1960, o fotógrafo colocou modelos femininas para pilotarem os carros da empresa pela cidade de Brasília com uma proposta clara: traçar um paralelo entre os avanços tecnológicos do automóvel, a cidade projetada por Oscar Niemeyer e Burle Marx e a mudança do papel da mulher causada pelo movimento feminista. Consumo também é poder e Chico Albuquerque sempre soube lidar com as pautas da classe burguesa, público-alvo dos produtos que vendia.

Com 60 anos de carreira e transitando entre Cinema, Fotografia Artística e Publicidade, Chico Albuquerque foi responsável direto por uma estética de mise-en-scène utilizada até hoje no mercado. Seus cliques retrataram o impulso consumista com a mesma honestidade que capturam o esquecimento de comunidades ribeirinhas ou avanço arquitetônico de uma metrópole em pleno desenvolvimento. Tudo verdade e tudo Brasil ao mesmo tempo.