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Arquitetura e Paranoia na Cidade Grande

O Som ao Redor. 2012. João leva Sofia para conhecer o engenho de seu avô Francisco. Por lá, os três conversam amenidades no almoço antes do casal sair para explorar o local. Visitam uma senzala abandonada, uma escola, um antigo cinema aos pedaços e terminam a incursão com um banho de cachoeira. O ultimo plano dessa pequena viagem do casal ao interior de Minas Gerais é a de João sozinho enquanto a água que cai em suas costas se transforma em sangue.

Na próxima cena do casal, João vai com Sofia conhecer a casa onde a garota passou um pequeno período de sua infância. Prestes a ser demolida para dar lugar a um edifício de 21 andares, o lugar é a única ligação de Sofia com o bairro e, de certa forma, também com João. Do sexo casual ao mais íntimo dos sentimentos em poucos dias, os dois flanaram por suas memórias, ruínas e escombros e terminaram sua jornada em um lugar sem futuro. É a última aparição dela no filme e é irônico que seja com João simulando seu trabalho como corretor de imóveis na imobiliária da família.

São poucos minutos, poucas cenas, mas que mostram bem as principais questões dos personagens e cinema de Kleber Mendonça Filho. O não-pertencimento ao espaço, o isolamento, a paranóia e a culpa de uma classe média alta que não sabe bem de onde veio e nem para onde vai. Pessoas confinadas em um círculo vicioso de eterna vigilância sem um indício sequer de uma ruptura radical entre o passado e presente. A existência pela existência. Ratinhos brancos de laboratório correndo por um labirinto tomado de arranha-céus.

Com três longas de ficção e uma dezena de curtas, os filmes de Kleber discutem a tensão de classes, a violência, o amor, ou mesmo a especulação imobiliária, sempre a partir da relação dos seus personagens com o espaço. Esse é o verdadeiro protagonista de suas histórias. Seja na metrópole vigilante, ou no sertão de Bacurau, é da assimilação do ambiente que os cercam que descendem todos os conflitos daquelas pessoas. Para Kleber não existe possibilidade cinematográfica que não seja um registro físico do lugar e do tempo em que ele se passa.

A cidade grande de seus filmes é tomada de prédios altos, grades, câmeras de segurança e uma sensação de violência iminente que move todas as histórias para frente. Vale para os moradores do bairro de Setúbal em O Som ao Redor, para Clara em Aquarius, mas vale também para os protagonistas dos curtas Enjaulado, Recife Frio e Noite de Sexta, Manhã de Sábado. De certa forma, todos eles compartilham da mesma história, dos mesmos medos e destino. Isolados na cidade grande, não conseguem ver nada que vá muito além do próprio muro cheio de vidro e o que resta é alienação completa como única opção.

Em Recife Frio, curta de 2011, o cineasta abre mão de uma abordem mais crua para escancarar o quanto a relação das pessoas com a ocupação na cidade grande é viciada. Pelas manchetes de um programa de TV gringo, mostra que nem um fenômeno absurdo da natureza é capaz de desestabilizar o status quo de um projeto de gentrificação e lazer de gente rica. Numa readaptação quase instantânea da lógica de habitação, muda-se o local do quarto da empregada, a decoração, as roupas e até a ideia de arquitetura, agora para uma cidade congelante, mas no fim do dia tudo continua mais ou menos igual.

Na cidade do medo não existe senso de comunidade, só um monte de gente amontoada tentando não se foder muito. O que importa é a defesa da propriedade e o bem-estar individual. E nessa disputa de narrativas, tudo se equivale: a moradora que tenta dar um fim no cachorro da vizinha para dormir em paz não está mais ou menos correta que a madame que não quer vender seu apartamento beira-mar. É a sociedade do cada um por si. Qualquer resistência pessoal —por mais nobre que seja— nunca é capaz de gerar mudanças estruturais. Clara vence a luta contra a construtora, mas qual o resultado prático disso para a sua cidade, para o seu bairro, para a sua rua? Sua peregrinação pode até representar uma conquista de poder e influência perante os seus conhecidos, mas as vitórias conquistadas por ela não saem do perímetro do Edifício Aquarius. Os espaços, personagens e situações mudam, mas a estrutura permanece inabalada.

A ideia de cidade grande proposta por Kleber é a de um lugar massacrante, pensada para amedrontar a classe média e expelir as classes mais baixas. Nos delírios do jovem de Enjaulado, ou nos sonhos da garota em Som ao Redor e Clara em Aquarius, o que tira o sono dos abastados é a paranóia de um dia ter que pagar pela dívida que (acha que) tem. “Nós os exploramos, de vez em quando eles nos roubam” é o pensamento-guia de quem tem certeza que a revolução começará pela invasão de quarto e sala financiado em 40 anos. Pensamento tacanho, de gentinha preocupada em estourar bomba para silenciar um cachorro e voltar a dormir em paz, enquanto quem se dá mal de verdade vai direto no Senhor de Engenho para acertar as contas e resolver seus problemas.

Porque quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha e se esculhamba. O bando de Clodoaldo se apropria da rua enquanto todo mundo se esconde. São olhos, ouvidos e bocas daquele bairro e, em poucos dias, já sabem quem é corno, quem vende droga e onde acontecem as festinhas para turista. O recado no telefonema anônimo não poderia ser mais didático: o asfalto agora tem dono de verdade, porque a rua é de quem tem coragem de ficar nela. Clodoaldo sabe a importância de se impor. Seu pai, seu tio e Francisco também sabiam. Vingança também é uma forma de empoderamento. De quem é o trono do rei morto?

Curiosamente, Clodoaldo e seu irmão são os únicos personagens da filmografia de Kleber Mendonça Filho que possuem alguma semelhança com os habitantes de Bacurau. Além da origem simples, também são do interior e acostumados com a ideia do espaço como possibilitador da união e celebração da comunidade. Ainda que caricato, o retrato daquela povoado é completamente antagônico ao bairro de Som ao Redor: na enfermaria, onde os moradores tiram cochilos depois de um pileque, no Museu de Bacurau que é ostentado com muito orgulho e, principalmente, nos espaços a céu aberto que mostram a relação entre os habitantes. Seja para ignorar o prefeito pilantra ou para cavar um buraco no meio da noite, todas essas ações partem de uma noção espacial e de unidade quase utópicas.

Porque o que move Bacurau não é a revolta ou o desejo de vingança. A luta daquele lugar é para continuar a existir, para estar no mapa e não ver toda a sua história virar ruínas e escombros na mão de gringo filha-da-puta. Instinto de defesa puro de gente acuada lutando pela manutenção da própria memória. Não há festa ou comemoração após a vitória. A desforra é seguida de uma faxina moral e literal: água para limpar o chão, mas o sangue na parede fica como registro do que aconteceu. Novas marcas na parede, novas memórias para a comunidade. Uma coisa só. Sempre foi e sempre vai ser assim.