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Burial: os Sonhos Eletrônicos de Um Arcanjo

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento.”
(Livro do Desassossego, por Bernardo Soares – Fernando Pessoa)

Com os olhos fundos e vazios, um homem na faixa dos 35 anos encara uma câmera digital já obsoleta. A fotografia granulada mostra seu semblante fechado e impassível. A boca entreaberta como se as palavras tivessem sido cortadas ao meio pelo frio do ambiente azulado que o cerca. Cabeça raspada, cavanhaque baixo, feições esquecíveis, com nenhum traço especialmente marcante. Poderia ser teu vizinho da rua da frente, o entregador do xis dos fins de semana, ou o rapaz que tu encaras no ônibus todo dia às sete da manhã tentando adivinhar o que está tocando nos fones de ouvido dele. Poderia ser qualquer um, e poderia ser ninguém. Mas é um dos mais importantes produtores de música eletrônica das últimas décadas.

A selfie é um dos poucos registros visuais divulgados do britânico William Bevan, mais conhecido como Burial. O artista despontou no underground eletrônico do Reino Unido na metade dos anos 2000 e foi peça-chave para consolidar o dubstep, embora seus trabalhos propositalmente fujam das convenções habituais de gênero. Esse dubstep dos subúrbios londrinos quase nada tem a ver com o que ficaria conhecido pelo mesmo nome na década seguinte, através de Skrillex e de memes e gameplays no YouTube. Longe também do glamour e agitação das raves de UK Garage dos anos 90, o gênero difundido por artistas como Burial, Skream, Loefah, Kode9 e a dupla Digital Mystikz (DMZ) representa os ecos de uma Londres fria, cinzenta e subterrânea. E, ainda, de uma Londres pulsante em sua marginalidade, cimentada em múltiplas subculturas — muitas delas inspiradas pelas sonoridades difundidas por jamaicanos em diáspora entre os anos 60 e 80, como o rocksteady, o reggae, o ska e o dub.

Mesmo com relação à cena underground do já solitário dubstep londrino, Burial sempre se portou como um outsider. Além de não tirar fotos, ele não realiza apresentações públicas e raramente concede entrevistas, preferindo viver no anonimato. Nem sequer a fama e a intensa aclamação de seus dois únicos LPs, Burial (2006) e Untrue (2007), foram capazes de desviar o artista de seu único propósito: fazer música. Até o lançamento de Untrue, acreditava que apenas umas cinco pessoas além de sua família sabiam que ele era músico. Muito se especulou que Burial poderia ser um pseudônimo de outros produtores conhecidos, como Aphex Twin, Four Tet, The Bug e até Kode9 — o fundador do selo Hyperdub, do qual o produtor faz parte. Sua identidade permaneceu incerta para o público até 2014, quando a tão aguardada selfie foi publicada e parte do mistério quebrado.

A escolha de se manter incógnito em um mercado cada vez mais guiado pela presença exaustiva na mídia e nas redes sociais parte da vontade de levar uma vida comum com os seus, mas também de seu fascínio pelo underground, por rádios piratas e pela descoberta de antigos registros sonoros cuja autoria pouco importa. É a partir de sua condição de solitude diante desta realidade digital frenética e narcisista que Burial enxerga e percebe o mundo — o qual, para ele, limita-se às ruas do sul de Londres. Tal qual a Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa e semi-heterônimo do poeta Fernando Pessoa, o isolamento o talhou à sua imagem e semelhança. Basta a visão das vidraças, as veredas repetidamente percorridas da cidade natal e o refúgio na própria arte para poder experienciar a vida em toda sua complexidade. Vidraças que, no caso do quarto do músico londrino, ironicamente exibiam uma prisão próxima de sua casa.

Os sons e cenas do cotidiano, bem como samples que remetem a memórias afetivas compartilhadas por gerações, ocupam um papel central na obra de Burial. Através de seus olhos e ouvidos, sentimos Londres como se ela também nos fosse familiar. Em entrevista ao jornalista e produtor Blackdown, com quem lançou recentemente o EP colaborativo Shock Power Of Love, Burial destaca sua relação de amor e ódio com a cidade e relembra um episódio que marcou profundamente sua percepção sobre ela: os atentados ao metrô, em 7 de julho de 2005. Na manhã daquela quinta-feira, um anônimo William Beavan rumava ao centro da capital inglesa com seus fones de ouvido, mas perturbado pelo burburinho dos cidadãos aterrorizados ao seu redor. Nesse mesmo dia, andaria por horas naquelas ruas inquietas, sentindo-se ferido como parte da cidade. A partir daí, a música representaria especialmente um lugar de conforto e também de profunda melancolia, assim como sua terra.

A maior inspiração de Bevan para começar a produzir veio dos antigos discos de jungle e drum and bass de seu irmão mais velho, que lhe contava histórias eletrizantes sobre as experiências na vida noturna e nas raves londrinas, muitas delas na clandestinidade. O jovem Will cresceu sonhando passionalmente com a atmosfera misteriosa daquelas festas em campos e velhos galpões, quase como se fossem universos fantásticos de contos de fadas. Sua mente sempre vistaria esses lugares, entretanto seu corpo jamais pôde sentir a mesma adrenalina, assim como o de outros de sua geração. A cultura das raves permaneceu como uma memória folclórica, carregada de nostalgia de algo nunca vivido. Em seus discos, Burial se porta como os pescadores fantasmagóricos da animação japonesa Angel’s Egg (1985), perseguindo as sombras de peixes inexistentes no meio de um centro urbano desabitado. No filme, a protovida na clausura do ovo protegido pela personagem principal parece mais aprazível que a subvida naquele universo abandonado por Deus. Nas músicas do produtor britânico, não há esperança de um retorno das oníricas raves, mas sim a busca por uma reprodução hauntológica de espectros de suas sensações hipnóticas em cenários isolados que naturalmente não teriam aquela energia. A trilha sonora perfeita para embalar uma festa sem convidados.

Um ano depois dos atentados no metrô, o mundo conheceria Burial (2006), que vinha sendo produzido desde a virada do milênio. Na capa, uma imagem aérea do sul de Londres, talvez na visão de um anjo ou de um fantasma. O disco de estreia soa como uma ode à fria cidade cortada pelo Tâmisa e às suas luzes estroboscópicas, distantes no tempo e no espaço. Entre os graves marcantes, os ruídos craquelados e os barulhos urbanos, há uma constante sensação de deslocamento e de perda, já anunciada em Broken Home. Faixas como Distant Lights e Wounder passam a impressão de se estar fugindo de algo ou perseguindo um sonho que nunca se consegue agarrar. Em outras como Forgive e Night Bus, a melancolia se acentua ainda mais com o cair de uma chuva torrencial. Há também momentos mais agressivos e até dançantes, todavia com o potencial entusiasmo sempre contido pela escuridão e pelos seres que a habitam.

Se em seu debut Burial imprime um despertencimento que parece partir de fora para dentro, como se Londres estivesse ruindo e afundando tudo ao redor, em Untrue (2007) ele se agarra a esses vazios e dentro deles se protege. Untrue se tornou um clássico absoluto entre a crítica e os amantes de música eletrônica ao explorar caminhos mais intrincados e audaciosos, com influências principalmente do two-step. Toda a aura de mistério que circunda o artista atiça ainda mais a imaginação de quem ali se embrenha pelos seus tormentos na selva de pedra. E o mais impressionante é que seus dois LPs foram inteiramente feitos no Sound Forge — um programa de edição de áudio bastante simples no qual ele se guiava basicamente pelo formato das ondas, sem utilizar sequenciadores ou se preocupar muito com o tempo dos elementos inseridos. Pouco importam os equipamentos, os softwares e o conhecimento teórico e técnico: se o espaço em que se situa não é perfeito, o som também não tem motivos para ser.

E, de fato, Burial brinca com o tempo em Untrue como se estivéssemos num estado alterado de consciência: algo entre o transe e o sono, quando ficamos mais receptivos para a comunicação com planos extrafísicos. Anjos e fantasmas transitam pelas gotas de chuva e pelas batidas picotadas e caóticas, transformando a audição numa experiência quase dissociativa. Muito se deve a uma das principais características do produtor, explorada intensamente no segundo disco: os vocais manipulados a um nível que extrapola o humano. Burial se alicerça em vozes conhecidas do R&B, pop e hip hop estadunidenses, como D’Angelo, Beyoncé e Usher, porém modifica radicalmente as frequências, alterando a percepção dos pitches e tornando irreconhecíveis os timbres dos artistas. Os vocais originalmente femininos são utilizados para soar como vozes masculinas e vice-versa: distantes da limpeza dos estúdios e despidos da pasteurização comercial, são apenas cantos lamuriosos de anjos sem gênero. Inclusive, vários dos samples são de gravações não oficiais e covers de anônimos encontrados no YouTube, como o da canção Angel, de Amanda Perez, que em Etched Headplate é interpretada por uma adolescente através de uma imagem pixelada de webcam

Untrue está envolto num sentimento generalizado de infelicidade e desconfiança, contudo é também um disco reconfortante à sua maneira. Prova disso é que a faixa mais popular, Archangel, surgiu de um conselho da mãe de Burial para que ele se animasse através da música após a morte de seu cachorro. Fazendo contraste com as letras deprimentes, as batidas costumam ser bem mais agitadas e revoltas que as do disco homônimo, como numa busca vertiginosa por alcançar a liberdade ou apenas por reafirmá-la. Se Raffa Moreira pensa sozinho no Sukiya em como queria ser eterno, Burial leva suas inquietudes para outros ambientes igualmente solitários, dentre eles o McDonald’s ou o quarto onde joga videogame, usando samples recorrentes de Metal Gear Solid. Em faixas como In McDonalds, Burial consegue converter o inferno em refúgio, fazendo as paredes frias e engorduradas do fast food parecerem as de uma igreja ou um templo para meditação. 

Homeless, para mim, é a que melhor traduz o conflito do dubstep londrino entre as sensações de despertencimento e de familiaridade. Os elementos sobrepostos em diferentes velocidades rítmicas provocam aflição, enquanto uma voz que, enganosamente, imaginamos ser de Michael Jackson ecoa um verso outrora romântico o qual crescemos ouvindo, mas que aqui abandona o local familiar e se torna um lamento desesperado e potencialmente suicida (“With my head hanging down…”). Algo semelhante ocorre em Raver, faixa que encerra o disco e homenageia os protagonistas das histórias quiméricas contadas a Burial: os ravers. Segundo o produtor, em entrevista ao crítico cultural Mark Fisher, “aqueles ravers estavam no limite de suas vidas, eles não estavam se precipitando ou ficando para trás, eles estavam exatamente ali e as músicas significavam tudo”. Apenas vivendo o momento, deixando o som conduzir suas almas acima dos perigos e das preocupações da cidade grande. Aqui, mais uma vez, há uma jovem anônima por trás de uma webcam cantando canções de suas divas: frases entrecortadas de um cover de Ressentment, de Beyoncé, no qual a sonoridade das palavras “You lied” podem ser facilmente confundidas com “Dream’s life”. Talvez sugerindo o falseamento dessas memórias que jamais serão alcançadas. A condenação de viver eternamente dentro de um sonho que nem sequer um dia foi seu.

O Hagakure, livro guia da filosofia samurai escrito por Yamamoto Tsunetomo no século XVIII, indica que encarar o mundo como um sonho é algo perspicaz, já que sonhos são “um reflexo profético da própria natureza” e, no fundo, não se diferenciam tanto da realidade material. O livro é quem orienta todas as ações e pensamentos do personagem de Forest Whitaker em Ghost Dog: The Way Of Samurai (1999), filme dirigido por Jim Jarmusch e sampleado no primeiro álbum de Burial. Assim como o músico, Ghost Dog é uma figura misteriosa da qual pouco se sabe sobre o passado ou o presente, mas a quem as ruas concedem um profundo respeito. Após ser salvo da morte por um desconhecido, ele assume a postura de um samurai e passa a servir lealmente a este homem — um mafioso estúpido e sem culhões ou habilidades para realizar a parte mais suja do serviço: matar.

O samurai estadunidense passa as madrugadas dirigindo ao som de RZA e outros clássicos do rap pelos becos e vielas dos subúrbios de Nova Jersey, observando os rejeitados que por ali circulam e acertando contas para seu mestre. Já sob a luz do sol, suas principais companhias são os livros e os pombos, ambos utilizados como meio de comunicação entre ele e outros humanos. Quando o mestre é obrigado por seus superiores a se voltar contra o vassalo, abalam-se as hierarquias e códigos de conduta. Em uma das cenas cujos efeitos sonoros foram utilizados por Burial, Ghost Dog encontra seu lar e seus objetos sagrados destruídos. O terraço em que vivia com os pombos se transfigura em cenário de guerra, restando apenas sangue, penas arrancadas e páginas rasgadas. Além de roubarem-lhe a paz, mutilam suas asas junto com a dos pássaros, limitando seu poder de comunicar-se com o mundo exterior. 

Comunicação esta que, no caso de Burial, ocorre por meio da música. Tal qual um samurai, Burial é também parte de uma casta antiga e fiel a seus antepassados, à sua conduta e, sobretudo, à sua arte e ao underground. Nas palavras de Ghost Dog, repetidas em Gutted: “Sometimes you gotta stick with the ancient ways, the old school ways. I know you understand me”. As batidas são, para Burial, as asas dos arcanjos que tanto aparecem em sua obra. Por intermédio delas, pode-se atravessar o passado e o futuro da música eletrônica inglesa, flutuando pelos ecos solitários e pelas luzes distantes de Londres. Seja na reclusão voluntária ou na impossibilidade de vivenciar fisicamente seus desejos nostálgicos, a música lhe permite alçar vôo como um arcanjo mensageiro e disputar o céu com seus fantasmas.