Skip to content

Cidade dos Sonhos: as Imagens Estimulantes de David Lynch

É bastante comum – e compreensível, dado o fascínio provocado pelo filme – a busca espectatorial pela decifração dos significados de Cidade dos Sonhos (2001). No entanto, a maior força do trabalho de David Lynch está mesmo na criação de uma narrativa de estímulos sensoriais, que obedece a uma lógica não totalmente diferente daquela do “cinema de atrações”, noção usada por Tom Gunning para se referir à propensão do “primeiro cinema” a ser menos narrativa e mais exposição. O experimentalismo caro a Lynch reforça essa impressão, considerando que os filmes dessa matriz se constituíram, ao longo da história, como herdeiros desse “primeiro cinema”. Há aqui também algum eco dos fait divers, das notícias bizarras e sensacionalistas próprias do “jornalismo marrom”, interessadas em causar impacto imediato no leitor.

Isso se manifesta de forma mais imediata nas sequências “soltas” do filme, que funcionam quase como esquetes independentes nas quais pequenas histórias extremas são mostradas sem maiores explicações: os amigos conversando numa lanchonete sobre o pesadelo de um deles que acaba se concretizando; o assassino profissional que, em meio a um trabalho aparentemente simples, tem que lidar com testemunhas inesperadas. No primeiro caso, a atmosfera opressiva de horror construída pelo relato apavorado e complementada por um susto magnífico. No segundo, a sucessão de trapalhadas que caracteriza o que Roland Barthes chamou de “fait divers de coincidência”.

Mas Cidade dos Sonhos está totalmente mergulhado num apelo sensacionalista que tem a ver com o próprio universo abordado por Lynch. Esse é um filme sobre Hollywood e seus mecanismos. O diretor, não pela primeira vez, toma emprestadas algumas características do noir, cinema também marcado por certo apreço pelas histórias do subterrâneo da sociedade, matéria humana espetaculosa e propícia à articulação de narrativas estimulantes, provocativas, intensas. É o que faz Hollywood, para o bem e para o mal, e Cidade dos Sonhos abraça essa lógica em seu fio principal. Todo o tratamento dado ao mistério envolvendo Rita (Laura Harring) carrega uma fascinação pelo mundo do cinema que impregna as próprias personagens: a empolgação de Betty (Naomi Watts) com a investigação é reveladora da consciência que Lynch tem do lugar que o desejo por experimentar emoções extremas, como num filme, ocupa tanto no imaginário social quanto nas expectativas do espectador americano. 

E mesmo a tal sofisticação de Cidade dos Sonhos, presente nos vários símbolos e na abertura a interpretações que encantam os espectadores, pode ser relida com base nessa propensão ao apelativo. A conclusão “era tudo um sonho” é na verdade bastante simples, meio primária até, típico golpe de um narrador que quer deslumbrar seu público – Brian De Palma fez algo parecido no ano seguinte com Femme Fatale (2002). A forma como Lynch apresenta as versões reais dos personagens na segunda parte de Cidade dos Sonhos, explicando a reconfiguração onírica feita por Betty/Diane, chega a ser didática. Importa mais, no fim das contas, esse efeito de esperteza, a partir do entendimento, pelo espectador, das origens de cada uma das figuras misteriosas que povoam uma história inicialmente indecifrável.

O cinema de Lynch frequentemente recorre a motes que são em si fait divers. Um homem com elefantíase transformado em atração de circo na Inglaterra vitoriana (O Homem Elefante); uma orelha humana encontrada num subúrbio tipicamente americano (Veludo Azul); o cadáver de uma jovem assassinada abandonado na beira de um lago (Twin Peaks); o anúncio enigmático, no interfone do protagonista, da morte de alguém (A Estrada Perdida); um octogenário que pega a estrada num minitrator para reencontrar o irmão doente (Uma História Real). O ponto de partida de Cidade dos Sonhos também cabe nessa definição, já que o enredo tem início com um violento acidente automobilístico que deixa para trás alguns mortos e uma sobrevivente desmemoriada. 

Lynch articula esse princípio da atração a partir de uma combinação de sensações extremas, produzidas por momentos bastante estimulantes (o susto do mendigo, a noite das protagonistas no Club Silencio), e convocação do espectador à decifração imediata dos enigmas propostos – tarefa que, no fim das contas, passa longe do impossível. Um encontro muito satisfatório entre experiência emocional quase sobrenatural (inexplicável, mas acachapante) e racionalização explicativa. Mas é mesmo na primeira dessas duas dimensões que o filme funciona plenamente: não há nada como o contato desavisado com as imagens altamente impactantes e a princípio sem muito sentido de Cidade dos Sonhos. Arte experimentada a partir de sua dimensão encantatória, mágica, conforme defende Susan Sontag. Contra a interpretação.