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Ecos do Passado e a Nostalgia Como Força em The Legend of Zelda: Breath of the Wild

Falar sobre The Legend of Zelda é falar sobre a história do videogame em si. Seu primeiro jogo possui trinta e cinco anos e é um dos elementos basilares para a consolidação da indústria e, por que não, dos games como forma de arte. O jogo explora a liberdade e foi um dos primeiros exemplos de mundo aberto em video game: seu personagem é colocado em um mundo desconhecido, sem explicações e sua única obrigação é explorá-lo. Esse lançamento se contrapõe aos jogos de uma tela só, como Donkey Kong, que limitavam a jogabilidade a fases separadas que ocupavam somente uma tela, enquanto The Legend of Zelda possuía um mapa vasto para ser descoberto.

A partir de Ocarina of Time, os jogos da franquia passaram a priorizar a narrativa, aplicando a linearidade e abdicando da liberdade de exploração em prol do desenvolvimento de uma história. Isto é um marco para a história dos videogames, pois muito se duvidava da capacidade de contar histórias em joguinhos naquela época. A franquia se mostrou transgressora, afim de quebrar barreiras dentro da indústria, mas para isso abriu mão da liberdade de seu primeiro jogo. 

Breath of the Wild, último lançamento da franquia, mantém esse espírito disruptivo mas, paralelamente, exercita sua nostalgia. Além disso, ele não tem vergonha de explorar elementos pré-estabelecidos por outros jogos: torres para revelar uma parcela do mapa é algo já visto em Assassin’s Creed, quebra-cabeças com múltiplas resoluções que incentivam o improviso são de Portal e coletar recursos pelo mapa que podem ser utilizados vêm de Minecraft. Somado aos empréstimos de outras franquias, há um elemento principal que é resgatado com louvor por Breath of the Wild: a liberdade do primeiro The Legend of Zelda. Vislumbrando um novo rumo para a franquia, Breath of the Wild resgata a autonomia do primeiro jogo, rompendo com a linearidade dos lançamentos mais recentes. Isso por si só já seria exercício de nostalgia suficiente, mas o jogo não para por aí.

Cem anos após a derrota para Calamity Ganon, Link acorda de um sono profundo no Santuário da Ressurreição. Sem memória, o guerreiro realiza diversas missões para um senhor misterioso enquanto ele nos revela o que acontecera durante sua ausência: Zelda se prendeu no Castelo de Hyrule contendo a destruição de Calamity Ganon e tentou o contato de Link, enquanto os Campeões, nobres guerreiros escolhidos para pilotar as Bestas Divinas, padeceram para a corrupção destas bestas provocada por Ganon. Foram anos de devastação em que Hyrule ficou à espera do retorno de seu Campeão remanescente para libertar a princesa e derrotar a calamidade de uma vez por todas e nós que guiamos este campeão.

Logo após o fim do tutorial, recebemos a missão de derrotar Ganon na batalha final. Breath of the Wild te dá a liberdade de acabar com o jogo logo de cara, caso você seja capaz, mas também te estende a mão para explorar esta nova e imensa Hyrule. Cada canto possui sua história e sempre há um novo lugar para ser explorado no horizonte. Embora o jogo estabeleça novas regiões, há muitos locais familiares de exemplares passados. À medida que caminhamos por esta terra, o sentimento de nostalgia nos acomete, por lembrar de localizações marcantes como o Templo do Tempo, o Rancho Lon Lon ou a Ponte de Hylia, todos em ruínas. 

A devastação destes locais infere duas coisas: a exaustão deste mundo com as batalhas cíclicas entre o bem e o mal, mas também um esgotamento com o passado recente da franquia, que se deteriorou. A Hyrule é pautada pela destruição e pela dor. Escombros e ruínas são paisagens comuns deste ecossistema e a trilha sonora serena se encarrega de naturalizar esse ambiente. Os cem anos de distância entre a Grande Calamidade e o presente da narrativa tornaram a devastação algo normal e esse cansaço também se estende ao modelo narrativo dos jogos passados de Zelda, onde narrativas lineares são cada vez menos comuns e jogos de mundo aberto que possibilitam o jogador a escolher o rumo de sua história são os modelos da geração atual de jogos. 

O recurso do protagonista com amnésia, um clichê muitas vezes explorado pelos jogos, aqui exerce dupla função: narrativa e empática. A primeira, lida com o caminhar da história daquele mundo, pois, se você opta por não ir diretamente para Ganon, Breath of the Wild te recompensa com uma narrativa não linear que te coloca para resgatar todas as bestas divinas. Enquanto a segunda, e mais interessante, mostra que, como o protagonista, o jogador não possui ideia do que está por vir e se torna parte ainda mais ativa desse mundo. A cada missão cumprida, uma nova memória é revelada e são essas lembranças de Link com os campeões falecidos que geram empatia por esses guerreiros que não estão mais no campo de batalha e nos dão forças literais (em forma de power ups) e metafóricas para enfrentar Ganon. O jogo nos conecta com este mundo e com os que lutaram por ele.

Além disso, uma das missões secundárias encoraja Link a explorar Hyrule em busca de suas memórias com a Princesa Zelda. Cada memória revelada mostra um pouquinho mais do que aconteceu há cem anos, como Link foi parar no Santuário da Ressurreição e como era a relação dele com a princesa. Descobrimos que a protagonista deste mundo é Zelda e a batalha que temos que enfrentar é apenas um eco do passado, reflexo da falha de quem deveria assegurar a tranquilidade de Hyrule. A nostalgia que liga quem controlamos à princesa é pautada pela dor da derrota e serve de combustível para o confronto final.

Donos e parte ativa desse mundo, Link e quem o controla, o experimentam ao bel prazer. Cada descoberta tem valor e marca em quem explora esta jogatina e é impossível não se imergir na vastidão de Hyrule. Dragões, santuários escondidos, a Master Sword, as sementes de Korok, sempre há algo para se encontrar. Além disso, as memórias, espalhadas por inúmeros cantos do mapa, são recompensas que nos fazem sentir o peso daquela ameaça e evidenciam o movimento circular do tempo: o passado se repete, a história é cíclica; Breath of The Wild relembra The Legend of Zelda, o jogo possui um ciclo interno e externo. A nostalgia é a força que se encarrega de estabelecer todo o peso de Breath of the Wild. É ela que é o elemento que gera empatia e é dela que a Nintendo tira inspiração para elevar a franquia a um novo patamar, ela está presente em cada cenário desta vasta e renovada Hyrule e é o principal motor para Link e quem o controla. O passado ecoa e se repete em Breath of the Wild, enquanto a nostalgia é a engrenagem encarregada de fazer tudo isso rodar. Finalmente a franquia retornou para a sua casa.