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Haruki Murakami: O Mergulho e a Superfície

Um protagonista sem nome flutua por um riacho de ocorrências que beiram o absurdo. Não sabe como se encontrou naquela situação, mas se deixa levar pela corrente: absorto pela causalidade, resolve não tomar como foco o porquê de cada curva ou queda d’água no trajeto; deixa de lado as indagações quanto às minúcias do percurso, talvez porque sinta que acabaria por se afogar caso movesse qualquer músculo contra o sentido da água, aceitando seu papel, não como observador à beirada, mas como fração essencial à correnteza e à jornada representada pelo curso d’água.

Embora desconheça o caminho a ser percorrido e não possa prever os obstáculos que podem se apresentar, não se deixa afogar pela confusão intrínseca ao momento. Ao invés disso, volta-se ao passado: na memória, busca o cotidiano, a rotina, momentos quando, e onde, a própria expectativa jamais o enganaria. Não busca por lembranças relevantes, particulares ou marcantes, mas pelo lugar comum, usando o conforto como ferramenta para combater o tumulto.

Nesta obsessão pelo lugar comum, o homem encontra uma maneira de dar valor a itens que outrora não mereceriam menção. Encontra nas orelhas de uma mulher amada, por exemplo, um brilho comparável ao sol, a chave para uma questão primordial: como sobreviver, quando o extraordinário se torna banal e o cotidiano se torna raridade?

A vida do romancista se entrelaça com a realidade do personagem no riacho, de acordo com Haruki Murakami. O escritor afirma haver perigo inerente em seu ofício, no próprio ato da escrita: “Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina, e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar”. Para que possa desfazer, resistir aos “males da criação”, utiliza a rotina a seu favor, mencionando a necessidade da força não só mental, mas também física, para que sejam superadas as provações submetidas ao escritor, pelo mergulho no ato de escrever.

Haruki Murakami vai contra o imaginário popular, contra as qualidades pessoais frequentemente associadas à figura do artista: “Há uma visão amplamente difundida de que adotando um estilo de vida não salutar o escritor consegue se despir do mundo profano e atingir um tipo de pureza que tenha valor artístico”. Enquanto maratonista, em sua obsessão pela corrida diária em horários específicos, fixos em sua rotina, mantém a cabeça sobre a água. Enquanto escritor, traça linhas, limitando o próprio processo criativo e reservando-o a períodos específicos, procura, de tal forma, atingir uma espécie de controle absoluto sobre a própria criatividade, ferramenta intrínseca a sua profissão.

As narrativas de Murakami são, por via de regra, labirínticas. Se Teseu utilizou-se do fio de Ariadne para trafegar pelo labirinto, as personagens de Murakami utilizam-se das memórias de acontecimentos diversos relacionados à normalidade para que mantenham os pés no chão em uma realidade que parece cada vez mais ignorar o possível, desmoronando-se sem aviso prévio. Grande parte de suas obras apresentam símbolos e rituais similares, que se desvendam como pontos seguros na narrativa, para o leitor assíduo de seus romances, e para o próprio escritor. O contexto do despontar de cada um deixa de importar tanto individualmente; tornando-se constelações guias para o leitor, em sua familiaridade, quando reunidos em um panorama.

A “trilogia do rato”, nome dado para a série de livros que iniciou a carreira de Murakami como escritor, fazendo-o, posteriormente, vender seu bar de jazz para dedicar-se completamente à vida como romancista, apresenta o realismo fantástico em uma rampa exponencial, com o “incomum” se tornando mais e mais presente em cada obra. 

Em “Ouça a Canção do Vento”, livro seminal de verão, o primeiro da trilogia, um protagonista sem nome passa o verão retornando à sua cidade natal, respirando o ar litorâneo com uma rotina preguiçosa: mata tempo bebendo e jogando pinball no Bar Do Jota – que frequentava, também, na adolescência-, com a companhia de “Rato” um amigo antigo. Rato é, provavelmente, o personagem mais emblemático da bibliografia de Murakami, e, no primeiro livro da sua trilogia, vê-se obcecado por uma mulher. A relação de rato com a mulher misteriosa permite que o “fantástico” escorra como suor pelas paredes no calor do verão em que ocorre, sendo a única fonte de fantasia em Ouça a Canção do Vento. A presença da mulher destoa dos momentos vazios de verão, torna-se a raison d’être de Rato, sendo uma presença fantasmagórica que respinga na realidade laissez-faire do protagonista. Embora não seja hipnotizado, levado pela mão para uma existência fantástica, como acontece com seu melhor amigo, a normalidade do protagonista também é abalada, e possibilidades além do comum são apresentadas.

No segundo livro, “Pinball 1973”, é vez do protagonista de encontrar algo como objeto de sua obsessão. Nesse caso, a máquina de pinball que costumava jogar em seu bar favorito, em sua cidade natal. O herói, embora perceba movimentos absurdos em sua vida cotidiana, como a presença de duas gêmeas que vêm morar em sua casa sem explicação aparente, não dá atenção aos mesmos. A única coisa que importa é a máquina de pinball, a busca pelas memórias do passado. O pinball serve como uma ponte, o segundo livro da série indica a possibilidade de absurdo total no cotidiano, mas ainda não se entrega completamente. É no terceiro livro que a normalidade é, de fato, quebrada, e que o objeto de obsessão se torna a única possibilidade de retorno à mesma.

Em Caçando Carneiros, o terceiro livro na série, o protagonista sem nome se vê na mais labiríntica de suas experiências, cujo objeto de obsessão é o próprio Rato. A jornada é uma queda em toca de coelho que só seria reproduzida de forma similar em Crônica do Pássaro de Corda, livro considerado por muitos como a epítome temática de Murakami: Caçando Carneiros destoa dos dois outros livros da trilogia pela estrutura quase paródica de histórias de detetives. O herói, em busca de, entre outras coisas, seu velho amigo, deixa a rotina para trás por completo, num crescendo que parece resumir a trilogia: do início ao fim do livro, há um desdém pela normalidade que aumenta progressivamente, com o absurdo se tornando lugar comum; a hospedagem em hotéis que parecem se situar na beirada entre essa e outra realidade, os encontros com personagens deveras mais confusas na sua própria existência do que as gêmeas de Pinball, o vórtice de questões em que se encontra o protagonista. O ápice do absurdo na narrativa é atingido quando o protagonista segue, novamente, sua rotina comum, mas em um local isolado em uma montanha cuja própria existência é razão para se questionar a realidade.

Toda a narrativa da Trilogia do Rato é permeada pela obsessão por símbolos que vão daqueles divididos pelo autor com suas próprias personagens, como um velho disco de Getz e Gilberto, direto da coleção pessoal do autor, o frequentar constante de bares diversos, do passado de Murakami como dono de bar – trabalho que o acompanhou no início da carreira como romancista-, a preocupação com a saúde física, a culinária; àqueles metafísicos, símbolos que não apresentam relação familiar para os personagens a que se apresentam, mas carregam valor para o leitor e o escritor, como poços infindáveis que parecem se fazer presentes onde seja possível sua existência, a femme-fatale, o próprio ato do sumiço de algo de tremenda importância para o protagonista, os felinos. A reutilização, a insistência no uso de tais símbolos em diversas de suas obras é acompanhada pela ressignificação dos mesmos, como uma nostalgia que se molda em cada uma de suas aparições, ainda que não haja ligação direta entre os romances e contos onde surgem.

Ao se escapar do labirinto, quando se conquista o retorno ao, de fato, familiar, quando o riacho deságua, o que se mantém é uma sensação de perda. Perda que, de maneira ou outra, impulsiona um amadurecimento de uma personagem, e também do autor. Para a personagem, há ressignificação dos artefatos que anteriormente mantinham personagens sãos: o que antes trazia lembrança do banal, agora traz de jornadas estranhas, de momentos de importância, de quebra de rotina.
Por conta dessas obsessões e idiossincrasias, o fantástico se torna mundano, e ocorrências cotidianas se tornam objeto de obsessão, mesmo que apenas na memória das personagens. Afinal, quando se vive na borda entre o conhecido e o absurdo, não só narrativamente falando, mas quando se há um ofício que se baseia no tráfego pelas beiradas entre o irreal e sua contraparte cotidiana, é necessário se agarrar a qualquer símbolo que possa servir de âncora. Se a busca por uma velha máquina de pinball, um artefato de velhos verões, é a única coisa a manter um personagem são, a única coisa que o mantenha em qualquer que seja seu caminho, deve o personagem se agarrar à obsessão, criando seu próprio “lugar comum”, sua própria ideia de normalidade.

Quando o protagonista de Norwegian Wood, a obra mais famosa de Murakami, ouve a velha canção que dá nome ao livro, permite-se rememorar: “Era ‘Norwegian Wood’, dos Beatles, […]. A melodia me perturbou, como sempre. Mas desta vez ela me emocionou bem mais que o usual, revolvendo violentamente algo dentro de mim”. Tal sentimento é uma constante, em cada curva dos labirintos que compõem a obra de Murakami, em cada momento com menor similaridade que seja entre suas outras narrativas. Para o autor, há o pico da montanha, ao se completar um romance, há o expurgo da narrativa que foi tecida nos momentos de perigo incorporados à rotina. Há também a expectativa do retorno, a antecipação pelo próximo mergulho. O que se mantém é o cotidiano, o lembrete da possibilidade do fantástico no lugar comum.