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Nas Entranhas de William Randolph Hearst

William Randolph Hearst, o magnata da mídia cuja trajetória inspirou Cidadão Kane (1941), construiu seu império a partir de um jornalismo sensacionalista. Os veículos que comandava difundiam histórias bizarras, fofocas, mentiras sobre adversários. O filme de Orson Welles compreende isso bem, ao articular seu impulso trágico, meio shakespeariano, a uma lógica narrativa da busca por segredos íntimos de uma celebridade. Cidadão Kane é feito também de pequenos momentos espetaculares: a morte de Charles Foster Kane após a referência misteriosa a Rosebud, a tomada de controle do jornal, a eleição, a tentativa do protagonista de transformar a segunda esposa numa cantora de ópera etc. A expressividade do estilo de Welles contribui para elevar ainda mais o tom. 

Mank (2020), de David Fincher, sobre o roteirista de Cidadão Kane Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), derrapa justamente por não conseguir transformar uma típica história de bastidores de Hollywood, povoada portanto de nomes conhecidos, num filme minimamente atraente. Outrora um maneirista inflamado, o diretor flerta com o retorno a esse estilo ao optar por uma fotografia em preto e branco que emula o trabalho de Gregg Toland em Cidadão Kane, usar alguns grafismos numa determinada cena e brincar com a estrutura textual dos roteiros de cinema para organizar as idas e vindas temporais da narrativa. 

Mas, ao mesmo tempo, mantém a frieza e o distanciamento característicos de seus filmes mais recentes. Não há qualquer paixão em Mank, nem mesmo raiva pelo apagamento de Mankiewicz que Fincher quer denunciar. Falta a verve polemista de Criando Kane, o infame texto de Pauline Kael no qual Jack Fincher, roteirista de Mank e pai do diretor, se inspirou – independentemente das imprecisões cometidas por Kael, pois that’s the spirit. Só na cena final há algo do tipo.

Nesse sentido, o esquecido e subestimado O Miado do Gato (2001), de Peter Bogdanovich, é muito mais certeiro no olhar que lança para Hearst e suas relações com Hollywood. Amigo e colaborador de Welles, Bogdanovich explora um episódio da biografia de Hearst (interpretado por Edward Herrmann) ausente de Cidadão Kane: a misteriosa morte do produtor de cinema Thomas Ince (Cary Elwes) num iate do empresário, em 1924. O diretor se aproxima da abordagem sensacionalista ao optar pela versão não oficial da morte de Ince, concretizando em imagens um rumor antigo que diz que o produtor foi assassinado acidentalmente por Hearst – após esse último confundi-lo com Charles Chaplin (Eddie Izzard), que teria um caso com Marion Davies (Kirsten Dunst), amante do magnata. 

O Miado do Gato sequer cogita a história oficial, segundo a qual Ince passou mal no iate e morreu por problemas cardíacos dois dias depois. Interessa a Bogdanovich a interpretação mais explosiva desse episódio, condizente com o tipo de conteúdo veiculado nos jornais de Hearst e reveladora dos podres da elite hollywoodiana, formada por artistas hedonistas e empresários poderosos, inescrupulosos, mas patéticos. O filme se esbalda nessa frontalidade, que não deixa qualquer espaço para ambiguidade ou dúvida.  

Há certo moralismo nesse olhar de Bogdanovich, que também está afinado com o “jornalismo marrom”: o fait divers, matéria-prima dessa imprensa, tende a simplesmente lançar a notícia bizarra no mundo e explorar seu potencial sensacionalista. Importa o imediato, logo, as reações do público que toma contato com esse tipo de conteúdo, sem qualquer mediação explicativa de nuances e complexidades, tendem a ser moralistas, conservadoras, de rejeição automática (ainda que interessada) ao que lhe soa estranho.    

No entanto, apesar de todo o juízo de valor existente, O Miado do Gato consegue extrair algum grau de humanidade de seus personagens. A complexidade das figuras hollywoodianas do filme se manifesta sobretudo numa tristeza decorrente do vazio de suas existências. Emerge aqui uma dubiedade que tem muito a ver com a própria condição de Bogdanovich, diretor da Nova Hollywood apaixonado pelo cinema clássico, que olha com certo desprezo para o hedonismo dos anos 1920 sendo ele mesmo um praticante do seu equivalente dos anos 1970. 

Resta intacta, inclusive na comparação com Cidadão Kane, a postura diante de Hearst. Tanto Welles quanto Bogdanovich abominam o poder que ele possuía e as forças que era capaz de mobilizar. Mas não fazem isso por meio da caricatura: apresentam o magnata da mídia como um personagem fascinante e merecedor de alguma comiseração por se mostrar frágil mesmo em tão elevada posição social. Cidadão Kane e O Miado do Gato são filmes energizados pelo prazer do embate com um homem poderoso, que ambos tratam como um adversário a altura – e se o segundo não tem a dimensão do risco presente na produção do primeiro, por ter sido lançado muitos anos após as mortes dos envolvidos na história, ao menos Bogdanovich mergulha na concretização de uma fofoca com uma convicção que deixaria o próprio Hearst orgulhoso (se ele não fosse o alvo, claro). É tudo o que falta a Mank.