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O Esgotamento do Sonho Americano em Páginas Amarelas

Drama passional, roubo de uma ponte de 40 metros, aparição da Virgem Maria, confissão perturbadora de um transexual, descoberta dos restos de quatro ocupantes de um disco voador nos Estados Unidos: todos os dias nossos jornais reservam um lugar, mais ou menos importante, para este tipo de informações tão diferentes quanto curiosas. Estamos diante do universo do discurso.

Sylvie Dion

Com o sucesso do cinema e programas televisivos, o jornalismo enfrenta um novo paradigma editorial. Para atrair a atenção do leitor as informações devem possuir três qualidades essenciais: se apresentarem fáceis, rápidas e divertidas. Nael Glaber, jornalista, escritor e crítico de cinema americano, estruturou o novo fenômeno afirmando que a televisão disseminou uma epistemologia na qual toda e qualquer informação, não obstante a fonte, é forçada a se transformar em entretenimento. Enquanto isso, a produção artística se encontrava a todo vapor na transição da década de 80 para 90 onde artistas como Robert Crumb, com a psicodelia low-art nos quadrinhos em Weirdo (1980-1993), David Cronenberg com o mórbido show de Videodrome – A Síndrome do Vídeo (1983), e John Carpenter em Eles Vivem (1988), se apropriaram do surrealismo para comentar sobre os gadgets da sociedade; a crônica do absurdo. Quem se apropria do imaginário socioemocional coletivo detém o poder sociocultural em influenciar opiniões e ideologias. Com a modernização das estruturas midiáticas houve transformações significativas não somente nos veículos responsáveis por essa transmissão viral como a necessidade do consumidor se tornou cada vez mais exigente e peculiar. A estranheza é viciante, a capitalização do entretenimento promissora e o sensacionalismo mortífero rentável.

O entretenimento como produto é uma forma sensória e prazerosa para uma população menos favorecida; é uma fuga, um divertimento, um anestesiante necessário. Filmes, rock, romances sanguinários, histórias em quadrinhos, televisão, jogos eletrônicos, ou seja, uma cultura de massa. Para Adorno e Horkheimer, em seus estudos sobre a produção de meios de cultura, o perigo inseparável à indústria cultural é o cultivo de falsas necessidades psicológicas que só podem ser satisfeitas pelos produtos do capitalismo. É preciso analisar o imaginário social para compreender como o entretenimento sensacionalista encontrou terreno fértil e lucrativo, sendo ele subproduto nascido do que se entende historicamente por “cultura baixa”, massificado e de fácil consumo, onde sua criação não se escora na durabilidade temporal ou no preparo cultural para uma interpretação decodificada. 

Foi em 1896 numa batalha para atrair a atenção dos leitores entre dois grandes veículos midiáticos – New York Journal e New York World – que o sensacionalismo precisou se reinventar para atrair um público exigente, habituado ao padrão estético grotesco estipulado pela recorrente venda do absurdo consolidado com a publicação do folhetim Le Petit um veículo de circulação impressa de origem francesa que publicava conteúdos melodramáticos, chamando atenção para o impacto emocional e não tanto pelo conteúdo em si. O que antes era exótico passou a ser corriqueiro. Era preciso inovar. Com esse pulsar lucrativo borbulhando nos bastidores, o New York Journal (numa atitude ousada e muito assertiva), decide veicular em suas páginas a primeira tira em quadrinhos moderna da história criada pelo artista americano Richard Outcault. Carregado de um conteúdo sensacionalista vulgar, The Yellow Kid relata a história de um garoto baixinho e cabeçudo que usa um pijama amarelo e explora os espaços típicos de certas regiões da miséria que existia no início do século 20 na cidade de Nova Iorque; becos e favelas. Ficou conhecida por ser uma das primeiras histórias em quadrinhos a ser impressa colorida, tendo na cor amarela seu maior destaque o que acarretou ao jornalismo sensacionalista também conhecido como faits divers, um termo sinônimo de “imprensa amarela”, que se sustenta através de manchetes escandalosas, impressas em letras garrafais com cores chamativas, disseminando excitação, às vezes sobre notícias sem relevância alguma, com distorções e falsidades.

No Brasil, o fenômeno teve sua cor modificada e passou a se chamar “imprensa marrom”, onde segundo relatos escritos por Rabaça e Barbosa (2001), em 1960 o editor-chefe Calazans Fernandes do jornal carioca Diário da Noite, na época referência em notícia sensacionalista, redigia uma manchete para a reportagem que narrava com detalhes o suicídio de um jovem cineasta que havia sido perseguido e chantageado por veículos da imprensa amarela, a revista Escândalo e afirmou “Amarelo na minha terra é cor alegre; põe marrom” (RABAÇA E BARBOSA, 2001). Compreende-se com isso a intenção clara em promover estímulos sensoriais para o entretenimento popular, sendo o jornal impresso na época o principal veículo de comunicação, tendo um enorme índice de circulação. Foi um elemento catalisador visando teletransportar o trabalhador ordinário ao mundo assombroso dos sonhos e pesadelos onde hoje pode facilmente ser acessado através de filmes, telenovelas, quadrinhos e séries.

Historicamente, os quadrinhos sempre tiveram uma importância significativa na indústria de massa para expor contradições sociais e promover reflexões através de humor e sátiras. Afundando nesse universo pautado no entretenimento popular que esbarramos com os trabalhos do quadrinista norte-americano Daniel Gillespie Clowes, nascido em 1961, considerado por muito tempo como uma das principais figuras da indústria de quadrinhos underground. Da infância até adolescência, no auge do consumo de revistas seguindo esse mesmo discurso ácido como a Mad, o cartunista explora toda depravação de uma sociedade norte-americana exposta em indecência enquanto consegue tecer uma observação analítica sobre toda indústria do entretenimento, consumismo, idolatria, rebeldia e sede por destruição na adolescência. A nostalgia e a paranoia como pontos marcantes de suas principais obras se mostram o terreno ideal para explorar esse fascínio humano em observar e consumir o nonsense em sua forma mais inconcebível. Clowes ganhou destaque ao criar histórias de atmosfera complexa aperfeiçoando sua estética pop dos anos 50, satirizando o vazio existencial e cultural da classe média privilegiada norte-americana. Sua produção artística continua tendo uma enorme importância para reforçar a crítica sobre uma sociedade de aparência e superficialidade, em que seus personagens encontram no absurdo o conforto que justifique sua podridão.  

Em Como uma luva de veludo moldada em ferro, publicada inicialmente em formato de antologia de 1989 até o final de 1993, Clowes escreve e ilustra uma série de histórias curtas nas 10 primeiras edições da revista Eightball. A trama acompanha a jornada do Clay Loudermilk, um homem ordinário e alheio a quase tudo presente no universo que o cerca, que tem a sua vida virada do avesso ao assistir a sessão de um snuff film (gênero em que as mortes filmadas são, supostamente, reais) e identificar sua ex-namorada como a atriz principal do filme. A partir desse episódio, a busca por respostas passa a ser o ponto central de sua existência. Nesse momento o quadrinho já entrega que o papel espectador televoyeur ocupado pelo protagonista é momentâneo e que o real voyeur é o leitor. No stilo road movie a jornada investigativa do personagem é cheia de elementos extremamente psicóticos; um cachorro sem olhos, nariz, boca e nem ouvidos, que precisa ser alimentado por seringas e esconde sob seu pêlo um mapa misterioso; uma dupla de policiais sádicos com tendências corruptas; uma ninfomaníaca de meia-idade, mãe solteira de uma filha mutante com aspecto físico que remete a um peixe e um líder de seita que convenientemente atende pelo nome de Deus e planeja assassinar uma colunista de autoajuda. Este é o retrato da manifestação do íntimo reprimido que precisa ser visto e explorado e, para isso, o quadrinista oferece ferramentas valiosas para acessarmos o inconsciente de Clay por quadros que retratam seus sonhos, uso de substâncias psicodélicas duvidosas e memórias emergindo. A confusão mental faz parte da experiência prazerosa em entender que nem tudo aqui precisa ser compreendido e são estímulos psicológicos a partir da exploração de acontecimentos que não habitam de forma alguma o espectro da normalidade. Clowes constrói um universo único que inevitavelmente acaba ganhando vida própria e expandindo organicamente com o desenvolvimento dos quadrinhos. A intenção não é justificar, mas sim revelar um homem frustrado ao revirar suas memórias angustiantes na tentativa de decifrar e compreender de uma vez por todas aquela desventura. É interessante observar como os poucos objetos que captam a atenção do protagonista aparecem em quadros posteriores, em formato de sonhos ocupando uma nova simbologia, mesmo que o consciente continue a operar de forma metódica ignorando todo entretenimento doentio ao seu redor e transformando todas essas bizarrices num plano de fundo insignificante. O inconsciente de Clay armazena todos objetos encontrados durante a sua jornada e transforma-os em chaves com potencial para escancarar mais uma memória do seu relacionamento fracassado, sempre mesclando momentos do passado com pistas do presente para desvendar o incompreensível, já que sua única fonte útil de respostas não existe mais em qualquer outro lugar além do seu próprio imaginário. Caminhando para o desfecho, cresce a sensação de dever cumprido e, mesmo que nada tenha sido solucionado, o alívio se apropria do personagem saturado pelo excesso de mudanças que sofreu ao longo de sua jornada particular. Comparando as feições das primeiras páginas com as últimas, entende-se que Clay Loudermilk já não é a mesma pessoa e que agora é preciso seguir em frente.

Em David Boring o quadrinista abandona a excessividade da estranheza em sua ambientação espacial e decide explorar essa temática através do comportamento humano e suas relações de dependência, o desejo reprimido, a tensão entre o que se pode conquistar ou abandonar e fetiches que tentamos reprimir a todo custo pela vergonha moral. Dividindo a história em 3 atos, igualmente publicados na revista independente Eightball entre 1998 e 2000, acompanhamos a jornada do Boring, um vigia noturno de 19 anos com uma personalidade obsessiva e fixação por mulheres de bunda grande. Nos primeiros quadros a história já aponta a sexualidade do protagonista como ponto de partida do desenvolvimento narrativo, captando com maestria a sensação de ser um jovem entediado nesse limbo transitório entre adolescência e vida adulta no final do século XX. A vida de David é dissecada desde a sua adolescência introspectiva até a fase adulta e a sua privação de liberdade no relacionamento com uma mãe possessiva e controladora. Em busca do controle de sua vida, o personagem parte para a cidade grande para dividir um apartamento e seus dilemas amorosos com Dot, sua amiga lésbica e arrogante que o acompanha assiduamente na procura por uma companheira ideal, que satisfaça todas as suas projeções de uma mulher perfeita. Através de uma narrativa em primeira pessoa, mais uma vez acompanhamos a trama de uma perspectiva privilegiada com acesso a detalhes importantes para concretizar um entendimento maior sobre a personalidade do jovem, como por exemplo a devoção pelo pai nunca visto, um quadrinista desconhecido que criou o personagem heroico “Raio Amarelo” e o despertar do primeiro amor pela instigante Wanda, que após alguns encontros que afloram sua pulsão sexual, desaparece misteriosamente, causando a partir desse ponto um colapso caótico de acontecimentos inusitados. A perversidade fetichista presente é a concretização de toda evolução narrativa gráfica que os quadrinhos sofreram no último século. Clowes apresentou um trabalho sombrio com possibilidades literárias importantes que consegue, mais uma vez, trabalhar criticamente sobre estereótipos norte-americanos e sua sujeira constantemente jogada pra debaixo do tapete. 

É exatamente expondo essa imundice, e mostrando a fragilidade das aparências, que Daniel Clowes foi comparado ao cineasta David Lynch: forte presença do surrealismo, apelo ao universo enigmático, flerte com o absurdo e o bizarro, dualidade e complexidade explorada em seus personagens e de todo questionamento a respeito da realidade. Essa unidade estilística reflete diretamente no zeitgeist americano da época em que os fait divers começaram a crescer e reverberar numa amplitude maior, modificando os veículos midiáticos e como consequência as dinâmicas sociais através de um reflexo trágico e surrealista. É sobre espremer o estereótipo até sua última gota através do esgotamento e da repetição, tendo no sensacionalismo um canalizador que promove a difusão cultural popular, quebrando as muralhas construídas por uma corrente erudita vista como “alta cultura” destinada a um público restrito com um elevado grau qualitativo. Surge então, o momento em que a tão disputada e valiosa atenção é contrabandeada através de escândalos, curiosidades e bizarrices.Em entrevista para o documentário “Nostalgia e paranoia” (Dick Tuinder, 2002), quando indagado sobre a ausência de finais felizes em seus quadrinhos, Daniel Clowes afirma não acreditar em soluções arbitrárias caso não aconteça uma resolução de maneira orgânica, e isso dialoga perfeitamente com esse caos cibernético que vivemos atualmente, pois a dinâmica deixou de ser orgânica há muito tempo. Nesse momento de transição onde o mito do fim do papel ganha força, mais uma vez o jornalismo precisa encontrar alternativas se reinventando e derrubando paradigmas. Se o papel desaparece, se a imprensa deixa de ser a principal referência material e torna-se nuvem dissipável, então vale tudo. A mídia decide conceder poderes absolutos para o marketing das empresas de tecnologia, a moda é apostar alto nos gadgets. Não há mais tempo. Clickbait, sensacionalismo, fake news. O que vender mais, o que atrair mais, pouco importa, a lei é viralizar. Os discursos narrativos contidos nos produtos culturais da vida pós-moderna são reformulados por uma necessidade apelativa, a bolha precisa ser perfurada, tempo é dinheiro e não temos tempo, muito menos dinheiro. O próximo viral se encontra a um clique e você vai clicar. Fonte? Boa pergunta.