Skip to content

O Príncipe, de Ugo Giorgetti: Brasil, País Sem Passado e Sem Futuro

“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past”. 

(O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald)

No diálogo que encerra O Príncipe (2002), de Ugo Giorgetti, uma mulher pergunta ao protagonista Gustavo (Eduardo Tornaghi) a razão de sua passagem pelo Brasil: “Negócios ou prazer?”. Ao que ele responde, ironicamente, com outro questionamento: “Como a senhora definiria um funeral?”. Como O Grande Gatsby, a obra-prima de F. Scott Fitzgerald citada numa das últimas cenas do filme, essa é uma história sobre a inocuidade da nostalgia, a busca infrutífera por reconexão com um passado insepulto. O funeral a que Gustavo se refere tem aqui três sentidos: o primeiro é literal, do seu sobrinho suicida; o segundo é o desse passado, enfim sepultado após as tentativas frustradas do protagonista de se reaproximar dele; o terceiro, do país.

É que há em O Príncipe um pessimismo muito característico do Brasil do início do século XXI. Os oito anos de governo FHC – do qual fizeram parte vários intelectuais progressistas, a começar pelo próprio presidente – representaram o triunfo da realpolitik sobre qualquer expectativa de transformação profunda da sociedade pelas mãos de homens que haviam pensado criticamente o país em tempos de ditadura militar. E ainda estavam por vir os dois governos Lula, que elevariam essa decepção a outro patamar. 

O Príncipe, lançado no ano da eleição do ex-metalúrgico e líder sindical para a Presidência da República, passa longe da euforia irradiada desse evento. É, nesse sentido, o contraponto perfeito a um filme como Garotas do ABC (2003), de Carlos Reichenbach, que, apesar de também diagnosticar a presença de um mal-estar conservador que quinze anos depois frutificaria na ascensão da extrema-direita ao poder, é substancialmente uma obra de celebração do Brasil de então, plural, miscigenado, governado por um operário. Um país de todos. Giorgetti não se permite qualquer gesto de esperança quanto ao futuro. 

Já o passado é esse tempo irrecuperável, com o qual Gustavo e seus amigos mantêm uma relação de saudosismo. O protagonista volta a sua terra natal após vinte anos para, como homem de meia idade, tentar reviver uma juventude de sonhos e afetos dos quais tem saudade. Mas reencontra todos os personagens daquela época muito mudados: uns, transformados em figuras fúteis com circulação por uma elite cultural mancomunada com o poder; outros, desencantados com a vida ou entregues a um certo niilismo. “Nós nos perdemos”, diz um deles a Gustavo.

Ao mesmo tempo, O Príncipe lida com o passado histórico através do interessantíssimo personagem do professor Mário (Ricardo Blat), sobrinho do protagonista. A desilusão desse sujeito com o Brasil tem um escopo menos individual e gera uma postura mais radical. Historiador, Mário vê seu país como desprovido de História, no sentido de fatos e personagens significativos, e a partir desse diagnóstico propõe a imaginação absoluta como solução. Forjar acontecimentos, atribuir ao Brasil um protagonismo inexistente, inventar uma nação. Reconhecimento desesperado da insignificância. Um país sem passado. Nesse caso, a nostalgia é uma etapa talvez desejada, mas ainda por vir. Antes é preciso ter do que sentir saudade. 

E o vazio total pelo qual Gustavo se move se completa no presente marcado pelo estranhamento, não só com os amigos de outrora, mas também com o entorno social. A sociedade brasileira se transformou sim, mas não na esteira de projetos pensados pela elite intelectual progressista. A mudança foi mais caótica, movida por forças descoordenadas e nem sempre comprometidas com avanços. A violência urbana sem controle, o evangélico que aborda o protagonista na rua. A primeira cena de O Príncipe já anuncia essa lógica: Gustavo, num táxi, não conseguindo reconhecer a rua onde morava.  

Nesse caso, a sensação de impotência é ainda maior. O não pertencimento a um lugar é mais forte e doloroso que a desconexão com um ou dois indivíduos. E apesar de seu cinema tomar como muito familiares os espaços da cidade de São Paulo, Giorgetti mantém O Príncipe sempre nesse estado de descolamento geográfico. À exceção do interior da casa de sua mãe, Gustavo frequenta lugares que lhe causam algum tipo de incômodo, seja por representarem instituições repressoras (a escola e a clínica psiquiátrica), por espetacularizarem a violência urbana descontrolada (a exposição fotográfica), por soarem excessivos e ridículos (a academia, o espaço cultural, o prédio faraônico da empresa WM, o barracão da escola de samba) ou por não mais se assemelharem ao que eram (a Praça Dom José Gaspar e o bar antigamente frequentado, agora fechado).

Essa última cena, aliás, é uma bela e melancólica síntese de O Príncipe: Gustavo e seu velho amigo Renato (Otávio Augusto), bêbados, erram como fantasmas, em meio a outros fantasmas (os moradores de rua, invisíveis a tanta gente, inclusive aos dois sujeitos), tentando invocar o tempo da juventude que não existe mais. A nostalgia do filme é, portanto, mais reflexiva que restauradora, conforme definição de Svetlana Boym. O retorno à terra natal é frustrante (o protagonista volta a Paris no final de O Príncipe) e a relação com o passado, especialmente por meio do personagem Mário, é crítica, ao mesmo tempo reconhecedora das limitações históricas do Brasil e reveladora dos mecanismos de construção de memórias oficiais. Nostalgia que, ao invés de paralisar e estimular o conservadorismo, desconstrói idealizações. Cinema político.