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Salve a Malandragem: Samba, Fé e Subversão

“Com os olhos rasos d’água / Ou com o sorriso na boca /
Com o peito cheio de mágoa / Ou sendo a mágoa tão pouca /
Quem é bamba não bambeia / Falo por convicção /
Enquanto houver samba na veia/ Empunharei meu violão”
(De Qualquer Maneira – Candeia)

No final do século XIX, em meio à lógica de progresso e civilidade da recém proclamada República, o Rio de Janeiro seguia o projeto de higienizar e domesticar a cidade e seus habitantes. Violava, principalmente, as ditas “classes perigosas” — o incipiente lumpemproletariado brasileiro, camada mais marginalizada da sociedade. Malandros, prostitutas, biscateiros, desempregados, subempregados e os que davam duro no baralho pra poder comer: todos escorraçados do território sagrado das ruas da pretensa cidade cosmopolita. Restava ocupar os morros.

A segregação socioespacial no Rio caminhava a passos largos, assim como a criminalização da pobreza e das culturas populares: o próprio Código Penal de 1890 continha um capítulo inteiro dedicado aos “vadios e capoeiras”. À submissão dos corpos e espíritos, o povo resistia sambando — desde muito antes do samba ser samba. Samba era sinônimo de festa, e ponto. Como a flor drummondiana que fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, a subversão popular vinha por meio dos fuzuês, das danças, dos carnavais e das macumbas. Nem só de pão vive o homem, afinal, mas de toda energia e sabedoria que procede da boca das ruas e encruzilhadas. E foi dos tambores dos terreiros de candomblé do Rio de Janeiro, frequentados e regidos por negros baianos, que despontaram os primeiros toques daquilo que seria uma das mais fascinantes formas de oração de nosso povo.

Na região portuária da cidade, apelidada como Pequena África, a percussão se estendia às intermináveis festas promovidas pelo povo de santo, em especial pelas tias baianas, até hoje homenageadas nos desfiles carnavalescos. A principal anfitrã era a filha de Oxum e mãe-pequena Tia Ciata, que se eternizaria como uma das mais importantes figuras da história do samba. Juntava-se aos atabaques a correria dos guris serelepes, paridos e criados pelas crenças e compassos, entre eles os pequeninos Sinhô, Donga e João da Baiana. Até mesmo em comemorações cristãs da capital fluminense, como a tradicional festa da igreja de Nossa Senhora da Penha, as palmas e tambores tomavam conta enquanto os festeiros abriam as rodas de umbigada — dança de origem Bantu, trazida ao Brasil por negros escravizados e considerada libidinosa pelo julgamento europeu. O encontro ritmado dos umbigos de homens e mulheres — em kimbundo, o semba — deu à luz outras danças e ritmos, como o jongo e o lundu. O samba nasce dessa comunhão arrebatadora entre o sagrado e o profano, atravessando o maniqueísmo e restaurando a vida de um país em perpétuo desencanto.

“Este ritmo binário, que é o alicerce principal de quase todos ritmos da canção popular do Brasil, veio importado de longe, das placas ardentes da África, onde o sol queimou a pele dos homens até carbonizá-la em negro. O compasso tão simples, que reproduz em tom grave as batidas do próprio coração, atravessou o Atlântico sob a bandeira dos navios negreiros, servindo para marcar o andamento de melopeias que vinham dos porões em vozes gemidas e magoadas.”
(Introdução do radialista Paulo Roberto ao disco “Obaluayê!” (1957), da Orquestra Afro-Brasileira, regida pelo Maestro Abigail Moura)

Engana-se quem reduz samba à folia carnavalesca — e mais ainda quem menospreza o Carnaval como mera algazarra. O Carnaval é, historicamente, terreno de disputa e de transgressão, sejam elas econômicas, políticas ou religiosas. Nele, o povo reivindica sua história e seu futuro, consagra seus heróis e cobra seus opressores — verbalmente ou não. A exemplo, o historiador, compositor e babalaô Luiz Antônio Simas compara o surdo de terceira das baterias de escola de samba, aquele que corta o de marcação e o de resposta, ao orixá Exu. Assim como o surdo, Exu é quem habita os entremeios e, dali, é capaz de criar o imprevisível e constantemente reinventar a vida e a morte. Estando além do bem e do mal, é o responsável por mediar os deuses e os homens, bem como o sagrado e o profano. Exu é aquele que mata um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje, que brinca com o tempo, com o espaço e com o equilíbrio de todas as coisas. E quebrar a normalidade e se fazer desabrochar das lacunas da existência é algo que o samba e seus bambas fazem com maestria.

É pelo samba que se sacralizam personagens populares das ruas, como Sete Coroas, valentão do Morro da Favela que ficara conhecido após assaltar um funeral de gala. Virou personagem da crônica policial do Rio e de compositores como Sinhô e Zé Keti. Mas o marginal, preto e favelado, que enfrentou os ricos, a polícia e o Estado, ainda seria elevado à potência divina. Sete Coroas se imortalizou sendo cultuado na umbanda como uma das falanges de Exu: “É noite escura / Na rua acende a vela / Sete Coroas / É o bamba da Favela”. Tal qual Sete Coroas, outras figuras humanas se tornaram sagradas pelo Brasil ao longo do século XX: os malandros, os baianos, os caboclos, os pretos-velhos, os boiadeiros, os marinheiros, as ciganas, as damas da noite… Esses espíritos, considerados “atrasados” pelo espiritismo kardecista e demonizados pelo cristianismo e pelas estruturas de poder, encontraram espaço em cultos como a Umbanda e o Catimbó.

Seu Zé Pelintra, o clássico malandro brasileiro, é o amigo fiel que protege os mais pobres e desafortunados. Nos versos de Itamar Assumpção, é ele quem penetra em cada fresta e rompe o cadeado. Vindo do Catimbó nordestino, o boêmio da madrugada foi sincretizado na Umbanda e tomou conta do imaginário coletivo com seu terno branco, lenço vermelho, chapéu inclinado e sapato de bico fino. A malandragem, tão viva no samba, é uma resposta direta às nossas desigualdades históricas — ela dribla o projeto aniquilador ainda em curso no Brasil, armada com a ginga, a navalha, a sagacidade e o bom humor. Assim, os arquétipos populares sacralizados não apenas remontam à ancestralidade e à memória: eles também formam um microcosmo do povo brasileiro. Tais entidades, através dos cultos religiosos e das culturas populares, traduzem o presente das épocas que perpassam, denunciando a marginalização e antagonização das minorias étnicas e sociais do país.

O psiquiatra, filósofo e revolucionário Frantz Fanon, ao analisar em seu clássico “Os Condenados da Terra” as sequelas psicológicas e simbólicas da violência colonial, atribui às danças, ritos, magias e incorporações uma forma de canalizar as necessidades de libertação e expressão humanas, em um contexto de reprimenda de suas manifestações corporais e pulsões energéticas. Para o escritor Mário de Andrade, um dos pioneiros da etnomusicologia, “feitiçaria e música sempre andaram fundidas uma na outra”. Segundo o modernista, em sua conferência “Música de Feitiçaria do Brasil”, o que as aproxima é a força hipnótica presente em ambas, a qual pode tanto entorpecer quanto elevar os sujeitos a um estado irrefreável de fúria e êxtase. Tal força se manifesta, principalmente, através do ritmo. Se os efeitos são múltiplos, os instrumentos, portanto, exercem funções distintas nesse transe sonoro. A percussão teria um caráter de mortificação, sendo responsável por exorcizar os mais variados demônios e espantar o sofrimento e os dissabores.

Entretanto, a literatura inicial do campo etnomusicológico vêm sendo revisitada na academia em busca de reparar certas visões folcloristas, que reduzem e generalizam as manifestações culturais de origem africana. O apagamento histórico dos povos de África deixado pela escravidão implicou também na perda de significados das musicalidades negras sob a ótica colonialista. O pesquisador Rafael Galante, em sua dissertação de mestrado, destaca o uso do termo “batuque”, empregado para designar uma imensidão de musicalidades, cada qual com suas particularidades, origens, sentidos e contextos. Segundo ele, o conceito de batuque foi construído como um fenômeno a-histórico. A historiografia, portanto, ao se apropriar dessas generalidades carregadas de preconceito e menosprezo, silencia também a riqueza de saberes que os tambores carregam.

Ao pensar nas representações sociais construídas na música brasileira, não há como deixar de destacar que, apesar da MPB ter se notabilizado como cancioneiro político do país, há uma violência simbólica — e também epistêmica — ao não se compreender da mesma forma outros gêneros e movimentos surgidos no seio do povo. Os ritmos categorizados genericamente como folclóricos — por exemplo, o maxixe, o forró, o maracatu, as modas de viola e os gêneros fronteiriços —, do mesmo modo que seus descendentes e variantes, carregam histórias e identidades fundamentais para que um povo possa professar sua fé em si mesmo e em seus feitos. Além disso, é preciso reconhecer o poder transformador das celebrações, como as que Tia Ciata realizava na Praça Onze, em meio ao caos da cidade partida. Tal qual os cultos religiosos, os carnavais e os botecos pés-sujos, elas são um espaço de reunião comunitária, de circulação de conhecimentos, culturas e ideias.

O samba, que herda das religiões afro-brasileiras as sabedorias percussivas e a binaridade rítmica, logra também da inventividade que mora nos vazios. Assim vêm as síncopes: o inesperado e imaginativo, que desnorteia os compassos ao mesmo tempo em que nos instiga e cativa. Tal qual seu Zé Pelintra, o samba é uma entidade sagrada e a essência da malandragem profana. Intrinsecamente, traz a alegria mais triste e a tristeza mais alegre. Samba é lamento, inquietação e revolta, ao mesmo tempo em que linguagem de exortação. Traduz a esperança e a fé no divino, na vida e nos nossos. Fé que cheguem dias como o da profecia de Wilson das Neves: aquele em que o morro descer e não for Carnaval. É, sobretudo, força para sobreviver às mazelas cotidianas e lutar por paz, justiça e liberdade. Em suas contradições, mais complementares que antagônicas, o samba é revolucionário.