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Serás Profeta do Altíssimo, Ó Demente, Pois Irás Andando à Frente do Senhor

Nos momentos finais de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), morre Zé do Caixão. Enquanto aguarda que seu corpo afunde, a luz de deus ilumina seu ultimato, e esqueletos submergem do pântano. Ele então, em suas últimas palavras, diz: “Deus é a verdade, eu creio em tua força!”. Nesse momento, de absoluta blasfêmia contra os princípios do personagem, deus se manifesta através da condenação. Assim que seu nome é invocado, surge o horror e morre o homem incrédulo. Podemos dizer, portanto, que Zé do Caixão só morreu pois deixou de crer em si mesmo como o centro do universo, deixou de acreditar no “Eu” acima de tudo. Aceitar algo acima de si, aceitar um mundo que não pode dominar, é sua passagem direta para o juízo final.

Quatro anos depois, surge, nasce, a reencarnação reversa do falecido coveiro. Em cores, o homem nu que caminha por São Paulo, recém-concebido ao mundo terreno, é o oposto de tudo que Zé do Caixão havia sido, mas preserva o mesmo poder de transgressão. Ele abandona a existência interiorana, deixa de ser o monstro do vilarejo, para se tornar essa presença alienígena no asfalto urbano. É Finis Hominis, o guru do fim do mundo, profeta do nada, algo vivo e irracional entre Nietzsche, Buda e Moisés. Vestido com um quimono vermelho e um turbante, torna-se o centro gravitacional da cidade e, logo em seguida, o olho de seu furacão. Finis Hominis faz com que o tempo pare e gire em torno dele, cria envolvimento popular, apenas para revelar-se como um destruidor impiedoso de qualquer instituição que deseje integrá-lo. Uma igreja de si mesmo que não pede nenhum fiel e não busca nenhuma adoração, apenas permeia dentro os prédios e as calçadas um desejo pela ruptura, pela desarticulação de qualquer meio concreto. Se trata, diretamente, de um kaiju paulistano, esse monstro que tem a cidade a seus pés e deseja, a cada passo, destituir qualquer normalidade do espaço em que caminha. Um gigante em extravagância e profanação, Finis Hominis despreza impressões imediatas e consegue ser, ao mesmo tempo, um milagre e uma aberração. Simplesmente não há como lidar com ele.

Enquadrado por uma câmera que opera sobre uma convulsão espaço-temporal, Finis Hominis surge e desaparece na mesma velocidade. Há uma inquietação imagética sempre que surge em tela, catalisando pra si toda a energia torpe de uma cidade em crise constante, enquanto faz da sua aparição o motor de uma anormalidade epidêmica. É como se, a cada gesto, Finis Hominis ultrapassasse a barreira do compreensível, tanto em sentidos físicos quanto em sentidos metafísicos. Não há como querer explicar suas ações, a capacidade que tem de realiza-las ou a motivação que está por trás de sua concretude, resta apenas observar como entra e sai de cena. No simples movimento de estar enquadrado e, segundos depois, não estar mais, que formula algum significado à sua estadia: criar inconstâncias, discórdias entre o fato e a razão, entre o natural e o sobrenatural.

Para que isso possa acontecer, Finis Hominis fala em nome de si mesmo, mas a fim de que isso alcance todos. Diferente de Zé do Caixão, que profetiza apenas seu próprio reinado trevoso, Finis Hominis fala pelo coletivo, expande o discurso do irracional para que ele atinja uma espécie de desordem mundial utópica. Se rompe com o estado de existência de uma civilização perdida, é para tentar formular o discurso de uma possível descivilização. O caminho para um coletivismo possível e justo, vigiado pelo olhar da transgressão, é apontado através da demência universal. Todas as criaturas estariam dispostas a se entregarem a um conjunto destrutivo, baseado no ode ao irracional, tendo como medida pragmática o combate à conciliação entre ideias. Uma espécie de paz mundial atingida pela excomunhão planetária, dirigida pelo combate à crença formulada e a qualquer institucionalização do comportamento.

Não à toa, o seu derradeiro discurso na montanha consegue unificar a atenção midiática e popular necessária para que o interlocutor seja a humanidade. A capacidade de Finis Hominis em tornar a aberração como expressão máxima da capacidade humana, esse estado absoluto de estranheza como ascensão final da criatura de carne e osso, é suficiente para que nenhuma de suas frases necessite de uma linha de raciocínio costumeira. Seu poder é cativar um ideal humanitário pela crise do pensamento, sendo uma força de horror viva que existe como salvação do meio racional.
A mensagem do profeta insano, em sua jornada delirante por um mundo em estado de ignorância em relação a si mesmo, é que as possibilidades caóticas de uma desorganização social completa trariam, finalmente, a grande Igreja do Homem. A Igreja do Homem será construída com a primeira pedra que alguém bater contra a própria cabeça. Uma instituição carnal, unificante, que valoriza a desvalorização do raciocínio e que encontra iluminação através da barbárie total contra a lógica. O fim do homem é apenas uma nova possibilidade de atingir um estágio superior de relação com a própria carne. Enquanto a televisão transmite sua proclamação máxima, Finis Hominis some, apenas para retornar ao seu descanso eterno atrás das paredes de um hospício. Deixa para trás, após as grandes revelações, todo um universo de pessoas sintonizados em seu ideal de insanidade criadora. O novo mundo pertence a todos que, assim como ele, desejam ser o nada.

E o que seria, afinal, a salvação e a verdade? Para Finis Hominis, é a condenação da humanidade por ela mesma. Essa condenação é vigorosa, triunfante, pois é a única que permite ao homem que ele tenha alcance de seu próprio destino. O fim do homem não é um presságio de medo, pelo contrário, é uma oportunidade de comunhão no irracional. Condenar-se, sem deixar com que isso seja-lhe imposto pelo tempo ou pelos céus, acaba por fazer a terra a morada do humano. Há uma grande realização em cativar todo um universo para que ele se rebele contra a ordem que o rege, colocando-se à frente de toda a história, de toda a ciência e de toda a fé.