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Showgirls: As Transgressões de Um Contrabandista Holandês

Paul Verhoeven não faz nenhuma concessão ao bom gosto em Showgirls. Esse é um filme povoado quase exclusivamente por gente escrota, que não tem escrúpulos para ascender socialmente e permanecer no topo. Nomi (Elizabeth Berkley), a protagonista, até parte do protótipo da jovem inocente em busca de um sonho, presente em narrativas como a das várias versões de Nasce uma Estrela, mas ela jamais desempenha plenamente esse papel. Mulher marginal, maltratada pela vida, portadora de alguma dignidade, mas capaz de empurrar uma rival escada abaixo para tomar seu lugar.


Ainda assim, há uma dimensão de conto de fadas que não desaparece por completo do filme. O diretor cria imagens muito poderosas da integração de Nomi à paisagem de Las Vegas que evocam justamente isso: a protagonista contraposta à fachada monumental de um cassino com referências egípcias ou comendo cachorro quente num terraço, de frente para um gigantesco letreiro luminoso. Marginais também sonham e, no fim das contas, Verhoeven adere aos desejos de Nomi.

Como uma produção despudorada da Boca do Lixo paulistana, Showgirls mantém relação bastante direta com a nudez e o sexo. Há uma defesa incondicional da frontalidade nesse campo, manifesta nas palavras do coreógrafo James (Glenn Plummer) a Nomi: “Pelo menos o que você faz é honesto. Eles querem peitos e bunda, é o que você mostra. Aqui (no badalado espetáculo Goddess, apresentado no cassino Stardust), eles fingem que são outra coisa, mas mostram peitos e bunda do mesmo jeito”. Esse é um filme sobre “peitos e bunda”, e bastante honesto quanto a isso. Verhoeven também escancara o mecanismo de artificialidades que rege o mundo do entretenimento, de Las Vegas a Hollywood (a cena final, com Nomi rumo a Los Angeles, não é à toa).

Dois momentos de Showgirls são bastante emblemáticos nesse sentido. No primeiro, Nomi, ainda trabalhando num clube de strip-tease, dança de forma exageradamente sexualizada no colo de Zack (Kyle MacLachlan), diretor de entretenimento do Stardust, enquanto Cristal (Gina Gershon), rival da protagonista e estrela maior de Goddess, assiste a tudo fascinada. O prazer proveniente desse momento não está exatamente em seu conteúdo sexual, que é em parte esvaziado por meio do exagero, mas na consciência, demonstrada pelos próprios personagens, da encenação caricata daquele ato.

Já o segundo momento vai além na explicitação do que há de farsa na imagem sexual presente no entretenimento: numa audição para fazer parte de Goddess, Nomi é constrangida pelo diretor do show (Alan Rachins), outro escroto (nesse caso, autoproclamado), a passar cubos de gelo em seus seios, a fim de simular uma excitação que deverá ser vista/consumida pelo público.

Partindo desse desvelamento do procedimento de criação do espetáculo, Verhoeven se sente à vontade para introduzir em Showgirls elementos de transgressão do bom gosto relacionados ao que há de mais básico no corpo humano, algo muito comum em alguns de seus filmes holandeses, como Louca Paixão (1974), O Amante de Kathy Tippel (1975) e Sem Controle (1980).

É exemplar disso a sequência em que Nomi visita a casa de James e ensaia com ele um número de dança. Conforme as ações dos dois vão se direcionando para o sexo, ela revela estar menstruada. A menstruação é um tabu social fortemente enraizado e referências a ela não são muito habituais no cinema mainstream norte-americano. Mas o passo seguinte dado por Verhoeven e pelo roteirista Joe Eszterhas é ainda mais ousado: após reação incrédula de James, Nomi sugere que ele verifique com a própria mão se ela está mentindo, o que ele faz prontamente. Ou seja, ao mesmo tempo que artificializa e critica a sexualidade enquanto objeto de consumo fetichista na imagem cinematográfica, Verhoeven naturaliza outro tipo de imagem ligada ao corpo, só que essa comumente considerada não-cinematográfica, pois excessivamente cotidiana, banal, historicamente associada à sujeira.

Showgirls mantém, assim, relação ambígua com um cinema semierótico dos anos 1980 e 1990, que tinha em Adrian Lyne seu realizador mais recorrente, mas do qual Instinto Selvagem (1992), do próprio Verhoeven, também pode ser considerado parte. Por um lado, Showgirls é a culminância desses filmes, especialmente por sua abordagem mais explícita e direta, ponto de chegada de uma familiarização gradual de Hollywood com o sexo e a nudez. Por outro, sua antítese, pois recusa uma visão limpa, sensualizada à lá revista Playboy, do corpo feminino.

No documentário Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano (1995), Martin Scorsese desenvolve a noção de cineasta contrabandista para se referir a diretores da Hollywood clássica que, trabalhando dentro de gêneros e formatos narrativos estabelecidos no período, introduziam em seus filmes “toques incomuns”, conseguiam “tramar enredos inesperados e às vezes transformar um material rotineiro numa expressão muito mais pessoal”. Scorsese cita, entre outros, estrangeiros que migraram de diferentes partes da Europa para os Estados Unidos, principalmente no contexto da ascensão do nazismo, como Billy Wilder, Douglas Sirk, André De Toth e Fritz Lang, responsáveis por abordar, por vezes sub-repticiamente (aqueles eram tempos de ultraconservadorismo), temas como a violência doméstica e cotidiana, a loucura, vícios, neuroses, racismo e aspectos da sexualidade tratados como tabus pela sociedade norte-americana. Ainda nessa reflexão, Scorsese classifica como iconoclastas os cineastas que foram além e bateram de frente com os valores morais e estéticos hegemônicos de sua época, geralmente filmando, por isso, fora dos principais estúdios.

Verhoeven, também migrante europeu, ainda que num contexto bastante diverso, se firmou em Hollywood como uma espécie de mistura desses dois tipos de profissionais. Ou melhor, uma versão radical dos contrabandistas, já que, apesar de criticar frontalmente elementos constituintes do american way of life, o fez em grandes produções durante toda sua passagem pelos Estados Unidos (encerrada em 2000, com O Homem Sem Sombra).

O gore de RoboCop e O Vingador do Futuro e a explosão sexual de Instinto Selvagem, três primeiras experiências hollywoodianas de Verhoeven, foram aceitos com certa tranquilidade pelo espectador dos anos de 1980 e 1990, mesmo que representassem um passo além do que Hollywood costumava fazer nesses campos. Apesar do conservadorismo subjacente ao reaganismo de então, a violência estava fortemente presente no próprio cinema de ação afinado ideologicamente com o governo e a sexualidade aparecia como parte do hedonismo daquela era de pujança econômica para as elites financeiras do país. Mas Showgirls escancarou uma verve subversiva insuportável.

Trata-se de contrabando pesado levado pelo cineasta para Hollywood, de difícil aceitação por público e crítica acostumados a uma certa zona de segurança que comporta mesmo a transgressão, definindo até onde ela pode ir. E a atitude ousada de alicerçar a narrativa escrachada de Showgirls, cheia de escolhas facilmente tidas por mau gosto, no referencial nobre do clássico A Malvada (1950) – o arco das personagens Nomi e Cristal é claramente copiado do de Eve (Anne Baxter) e Margo (Bette Davis) – não ajudou Verhoeven a adquirir alguma respeitabilidade para seu filme, fracasso retumbante em 1995. Revela, por outro lado, sua iconoclastia.